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Ainda não havia para mim Rita Lee

Semana passada estava em São Paulo. Acompanhei a última etapa eliminatória do Prêmio Visa. O prêmio, que é hoje um dos mais cobiçados por músicos de todos os cantos de dentro e fora do país, e já revelou nomes como Yamandú Costa e Mônica Salmaso, é também dos que possui um dos sistemas de avaliação mais interessantes. Esse ano é a versão compositores (que se alterna com a versão intérprete e instrumentista) e foram mais de três mil candidatos. Desses são selecionados vinte e quatro. Cada um dos selecionados apresenta nessa primeira fase quatro canções de sua autoria. Apenas doze passam à etapa seguinte com a obrigação de apresentar pelo menos mais duas novas composições, entre as quatro exigidas. Dos dois parceiros meus disputando essa fase somente Kristoff vai à final, ao lado de João Donato, André Abujamra, Fred Martins e Danilo Moraes. O resultado, que saiu no dia seguinte, não deixou de causar um certo estranhamento por incluir o nome de um medalhão consagrado como Donato. Afinal, um prêmio com a tradição de revelar novos talentos da música brasileira talvez devesse ter algum mecanismo regulamentar que restringisse a participação de artistas com até dois CD’s lançados por exemplo. Atualmente, pelo regulamento, não haveria qualquer tipo de impedimento caso Chico Buarque, Caetano Veloso ou Milton Nascimento resolvessem entrar na disputa. E nesse caso a questão não é que a produção dos candidatos desconhecidos seja inferior à dos medalhões, o que preocupa é a isenção do júri diante da obra desses senhores que vem se confundindo com a própria história da música brasileira. O fato é que o meu outro parceiro, Vítor Santana, ficou de fora. Mas, se serve de consolo, somente o fato de ter ficado entre os doze entre mais de três mil candidato já pode ser considerada uma vitória. Agora os finalistas terão de apresentar três canções, sendo que pelo menos uma delas não pode ter sido apresentada ainda nas etapas anteriores. No final das contas cada candidato vai ter de apresentar pelo menos sete canções de sua autoria. Se quiser ele pode apresentar até onze canções diferentes. Ou seja, dá pra se ter uma idéia, ainda que parcial, da obra do cara, dá pra identificar estilos, fazer comparações mais objetivas. A grande final é dia 18 de outubro e vai acontecer no Tom Brasil. Dia 22 de outubro, às 22h00, o Canal Multishow apresentará um programa especial. No palco Kristoff vai apresentar três parcerias nossas: “Em pé no porto”, “A volta barroca” e “Intuição”, esta última também com Pablo Castro e Balú. No sítio do prêmio dá pra ouvir a gravação de todas as músicas das etapas anteriores. Lá vocês vão poder conferir as possíveis “injustiças”. Na contramão da classificação de Donato por exemplo, muita gente ficou indignada com a desclassificação de Wilson Moreira, que teve três canções defendidas pela cantora Luciane Menezes , e depois subiu ele próprio ao palco para encerrar com “Oloan”. Talvez haja algum tipo de deslocamento também nesse caso, afinal Wilson é da velha guarda da Portela, tem músicas gravadas por nomes como Clara Nunes e Dona Ivone Lara, pra ficar só em duas de suas maiores intérpretes. E por falar em intérprete quem deu o ar da graça foi Marina Machado, interpretando “A chamar”, parceria de Kristoff com Luiz Tatit. Já está tudo disponível, entrem lá e tirem suas próprias conclusões.
Ainda em São Paulo assisti à primeira apresentação do projeto “Pais e Filhos”, idealizado e dirigido pelo curinga Carlos Rennó no Sesc Pinheiros. No palco Caetano e Moreno Veloso acompanhados apenas por seus violões microfonados. Um apresentação minimalista, em clima de sala pequena, apesar do grande teatro estar lotado. Juntos eles cantaram coisas bonitas como “Preconceito” de Wilson Batista, “Noche de Ronda” do mexicano Agustín Lara, “Genipapo Absoluto” do Veloso pai e “Um passo à frente” do Veloso filho. Cantaram também “Um canto de afoxé para o Bloco do Ilê” e “Sertão”, parcerias dos dois. Mas o mais interessante foi ver as pequenas discussões familiares, aquela coisa tão corriqueira do filho desmentir o pai e vice-versa, de um mesmo episódio em comum evocar lembranças tão diferentes na memória de cada um. E Moreno tem um jeito muito peculiar de baiano acanhado, tímido mesmo e quase frágil no palco. Nesse sentido chega a ser tirana a presença do pai ali ao lado, com sua voz tão bem modulada, sua imponência e sua segurança em contraponto com a voz delicada e retraída do filho. Mas às vezes os papéis se invertem e ali no palco eles atuam não só como pai-e-filho, mas também como homem-mulher, ativo-passivo, famoso-anônimo. Pano pra manga pros analistas!
De São Paulo segui direto para Ribeirão Preto, onde está acontecendo a 6ª Feira Nacional do Livro. A convite do meu amigo Gustavo Uba levei para seu estande livros, CD’s e revistas que vimos produzindo nos últimos anos. Fiquei por lá quatro dias, tempo suficiente para vender alguns exemplares, pagar a viagem e ainda trazer na bagagem muitos livros que eu vinha namorando havia meses. Dois deles eu comecei a ler no ônibus de volta: “A geração que esbanjou seus poetas”, de Roman Jakobson sobre o impacto profundo do suicídio de Maiakovski, naquele fatídico 1930. O lingüista identifica naquele gesto dramático o indício da derrocada de toda uma geração fantástica de poetas que sucumbiu sobre o julgo bolchevista. De Khlébnikov a Iessiênin, passando por Gumiliov e Blok, sem contar os que sobreviveram mutilados pelas humilhações, como Ana Akhmatova e Boris Pasternak. Alguma semelhança com nosso passado recente não é mera coincidência! A outra leitura em trânsito foi “Rita Lee mora ao lado – uma biografia alucinada da rainha do rock”. É um livrinho delicioso que você lê de uma sentada. Ficava lendo e os passageiros ao lado não entendiam a rapidez com que eu alternava gargalhadas e derramamentos. Mais do que a vida de Rita, o livro é uma viagem lisérgica e despretensiosa aos intestinos da indústria musical entre as décadas de 60, 70 e 80. E de quebra ainda conheci o autor Henrique Bartsch: roqueiro grisalho, pai de família, ribeirãopretano e gente finíssima. Conta casos curiosíssimos como a compra da famosa Guitarra de Ouro em 1972, que ele guarda na sua casa até hoje. Aquela mesma que aparece nas capas dos discos Tropicália e no segundo disco dos Mutantes. O resto é lenda!

Postado em 23/09/2006 Blog!

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Sobre o autor

Makely Ka (Valença do Piauí, 1975) é um poeta cantor, instrumentista, produtor cultural e compositor brasileiro. Makely é poeta, compositor e agitador cultural. Atuando em diversas áreas como a música, a poesia e o vídeo. Incorpora à sua produção artística um componente crítico e reflexivo. Autodidata, desenvolveu uma poética musical própria, amalgamando elementos da trova e do aboio de herança ibérica às novas linguagens sonoras urbanas como o rap, do despojamento da poesia marginal ao rigor formal da poesia concreta.

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