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Eleições 2010

Talvez não seja ainda visível em outros estados, mas para quem mora em Minas é muito claro que o candidato a reeleição ao governo estadual faz na verdade uma campaha ostensiva visando as eleições presidenciais de 2010. ‘Neto de Tancredo’, ‘novo Juscelino’, ‘abriu mão do próprio salário’, implementou o tal ‘choque de gestão’ e conseguiu a proeza do ‘déficit zero’, tudo isso corroborando a imagem do ‘exímio administrador’. Aqui o primeiro grande embuste, comprado pela grande imprensa de forma totalmente irresponsável, ao aprovar a idéia de que governadores, prefeitos e presidetes da república devem atuar como gerentes. Ora, cidades, estados e países não são empresas, não existem em função do mercado, não tem como finalidade gerar lucro. Há relações humanas e sociais que antecedem e são o fim último de todas as ações econômicas, prioridades que pairam acima de todos os interesses de mercado. Governar é muito mais complexo que promover supostos choques de gestões na economia. Mas a grande imprensa, de uma forma geral, comprou a idéia de que governar é gerenciar bem. Senão vejamos, em 2004, quando o governo do estado divulgou “a proeza” do déficit zero, todos os grandes veículos de comunicação do país, incluindo os principais jornais diários; como a Folha de São Paulo e Jornal do Brasil, as TV’s; como a Globo e o SBT, e as revistas de circulação semanais; como Veja e Época, publicaram os releases enviados pelo Palácio da Liberdade aderindo a uma campanha publicitária milionária sem uma nota sequer de dúvida, de questionamento, de crítica – afinal esse deveria ser o papel da imprensa. O marquetismo tem funcionado tanto que o hoje o ex-governador de São Paulo e atual cadidato à presidência, tem usado o mesmo discurso do “choque de gestão” para passar a imagem do administrador competente. Mas vejamos, a própria Fundação João Pinheiro (http://www.fjp.gov.br/cei.php), orgão do governo de Minas, desmente o jargão de campanha do candidato de que o PIB do estado cresceu mais que o dobro do nacional. Segundo a instituição, a taxa de crescimento do estado é muito semelhante, oscilando um pouco, acima e abaixo da média nacional. Como se ão bastasse, a FIEMG (Federação das Indústrias do Estado de Minas Gerais) também registrou queda de produção e de investimentos nos últimos três anos, principalmente a pequena e a micro-indústria. ( Mas há muito mais coisa aqui capengando, se você quer saber, e nem precisamos de estatísticas para nos dizer que não moramos em nenhuma Suiça!). Ou seja, o caráter marqueteiro do choque de gestão parece ser seu principal trunfo, pelo menos até agora.

Mas há ainda um outro lado, mais obscuro, mais complexo e melindroso nessa história. Desde que o atual governador assumiu, os orgão oficiais de imprensa – a mineira principalmente, mas não só – além de darem grande destaque (sempre de forma acrítica) para as campanhas publicitárias do Palácio da Liberdade, simplesmente deixaram de cumprir seu papel de cobertura jornalística dos fatos. Pois faz exatamente três anos que não sai uma nota, seja escrita, falada, desenhada, uma charge sequer, contrária aos interesses do governo do estado. Será que a competência é tamanha que não há uma única voz destoante em todo o jornalismo mineiro, ou o buraco é mais embaixo? Até agora somente boatos, (mas boatos fortes!) diziam que a irmã do governador, pessoalmente, patrulhava as redações. Notícias aqui e ali davam conta de jornalistas exonerados, escândalos abafados, pautas caindo, programas ao vivo sendo tirados do ar bruscamente. Aí um formando em jornalismo da UFMG, desses que deve ter trabalhado de graça como estagiário nas mesmas redações a que estamos nos referindo, apresentou como projeto de fim de curso um video com o depoimento-bomba de alguns jornalistas que protagonizaram as ações geradoras dos tais boatos. E descobrimos enfim que não eram somente boatos. A imprensa – mineira principalmente, mas não só – sofre calada a pressão e o controle feitos com mãos de ferro pela dama de aço, que amordaça os infelizes dos nossos jornalistas que tentam difamar seu competente irmão. Aqui está o línque para o video realizado por Marcelo Baêta: “Liberdade, essa palavra”. Sugiro aos interessados que assistam e divulguem, antes que a SubCS ( subsecretaria de comunicação social do governo de Minas) descubra e dê seu veto, talvez colocando trajas pretas nos olhos dos jornalistas entrevistados, já que não pode demitir o jornalista responsável!

Postado em 31/08/2006 Blog!

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Sobre o autor

Makely Ka (Valença do Piauí, 1975) é um poeta cantor, instrumentista, produtor cultural e compositor brasileiro. Makely é poeta, compositor e agitador cultural. Atuando em diversas áreas como a música, a poesia e o vídeo. Incorpora à sua produção artística um componente crítico e reflexivo. Autodidata, desenvolveu uma poética musical própria, amalgamando elementos da trova e do aboio de herança ibérica às novas linguagens sonoras urbanas como o rap, do despojamento da poesia marginal ao rigor formal da poesia concreta.

(1) resposta

  1. Joanna
    22/05/2007 de 20:23 · Responder

    ooi, eerm,
    eu adorei o texto :D foi muito bem elaborado 8) parabéns #D

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