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Imyra, Tayra, Ipy


Faço aqui um breve relato da impressão que me causou a audição desse disco que chegou até mim por um desses acasos do destino. Consegui algumas informações na rede, falei com pessoas que conviveram com o autor, entrei em contato com uma das filhas. Sei que vou escrever mais sobre ele em um momento mais oportuno e é provável que eu fale sempre dele daqui pra frente, já que minhas referências são recorrentes, insistentes e autoreferentes!

Taiguara é dono de uma das trajetórias mais inusitadas da música brasileira. Nascido por acaso em Montevideo, terra de Lautreamont – a maior referência dos surrealistas no início do século XX-, o filho do maestro e bandoneonista Ubirajara Silva e da cantora Olga Chalar incorporou elementos do surrealismo europeu e da literatura fantástica latino americana não só na sua inacreditável obra, mas na sua vida de uma forma bela e trágica.

O nascimento no Uruguai é somente mais um dado biográfico improvável que torna tudo mais curioso ainda na história desse que foi um dos compositores mais brasileiros no sentido dialógico e transgressor dentro de uma tradição musical que se consolidou no decorrer do século passado. O nascimento no Uruguai guarda a mesma ironia que cerca o birmanês Nick Drake, num acaso do destino que escolheu o longíquo país asiático para ver nascer um dos compositores mais influentes na música inglesa a partir dos anos 70.

Pra começar é preciso dizer que Taiguara foi dos artistas mais censurados do país durante a ditadura e isso, como não poderia deixar de ser, marcou profundamente sua vida e sua obra. Foram mais de cem canções vetadas pelos censores. Esse número dá conta de toda uma obra e seria motivo suficiente para qualquer pessoa sensata no mínimo pensar em mudar de ramo, antes de tomar atitude, digamos, mais radical. Ao invés disso o uruguaio partiu pra cima e acirrou o discurso. Exasperado com a perseguição e impedido de continuar trabalhando no Brasil ele se auto-exilou na África – destino incomum para exilados políticos – seguindo depois para a Europa. Nesse período aprofundou seus vínculos com a resistência cultural incorporando elementos de outras culturas que dialogam em sua obra com a tradição musical brasileira. Suas canções passaram a assumir um sentido agudo de liberdade ao mesmo tempo em que incorporava uma urgência na transgressão dos limites estéticos da canção, numa relação orgânica e indissociável entre letra, música e posicionamento político.

Essa opção radical fica clara no disco “Imyra, Tayra, Ipy”, gravado ao longo de 75 e ‘lançado’ no ano seguinte, no retorno do exílio. Um dos discos mais instigastes e exuberantes da vasta e rica discografia setentista, para esse trabalho Taiguara convocou uma orquestra com nada menos que 80 integrantes e chamou o endiabrado maestro Hermeto Paschoal para auxiliar nos arranjos e na direção musical, num período em que o bruxo albino ainda se interessava por e colaborava com cancionistas. Entre os músicos convocados constavam ainda nomes como o de Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Jacques Morelenbaum, Novelli, Zé Eduardo Nazário e seu pai Ubirajara Silva entre outros. O disco que radicalizou o discurso contra a repressão sem abrir mão do experimentalismo musical e do esgarçamento dos limites da canção foi recolhido em tempo recorde por uma ditadura atônita, num período em que a dita já era supostamente mais branda. Menos de 72 horas após ser distribuído o disco foi recolhido das lojas, para nunca mais ser lançado oficialmente no mercado nacional.

Sem fazer concessões, o compositor espeta com lâmina afiada a ferida aberta em versos duros e pungentes como “como é que você vai me dar o que já é meu /  como é que você vai criar o que já nasceu / como é que você resolveu que sou livre agora / você esqueceu que só quem pode me libertar sou eu? “.
Ou ainda nos sintomáticos versos onde trata explicitamente dos percalços com a repressão e a censura, a relação ambígua com o país como exilado/ estrangeiro, o prenúncio da condição de mártir incompreendido:

“Minha amada amordaçada / de amor forçado a se calar / meu peito guarda o sangue brando / que ainda por ti vou derramar”

A mais bela e enigmática do disco no entanto me parece ser essa “Sete cenas de Imira”, que disponibilizo aqui e que não pára de rodar na minha cabeça há dias. A engenharia de construção dessa canção formidável, que remete a um moto-contínuo, evocando uma mitologia indígena tão familiar e ao mesmo tempo tão estranha, o contraponto das vozes, toda a complexidade a serviço de uma canção aparentemente simples do ponto de vista formal, me lembra de um lado a falsa simplicidade de clássicos como “Àguas de Março”, mas lembra também o destino trágico de obras que ousaram desafiar seu tempo como o “Guesa Errante” de Sousândrade:

Imyra, Tayra, IpyPrimeira cena: o nascer/ Do beijo de Ara rendyJemopotyr – florecer/É gema, é germe, é gen-luz/ Imyra brilha no ar/ Corou vermelho e azul/ Por sobre o virgem rosar/ É rosa gente, é razão/ É rosa umbilicalJukira, sal, criação/ Potyra, flor-animal /Imyra Tayra, Ipy/ Segunda cena: crescer/ Ferir o espaço e abrir/ A flor primal de mulher/ Figura, cor, rotação/ Calor, janela, pombal/ Palmeira, morro, capim/ Moreno, ponte, areal/ Retina, boca, prazer/ Compasso, ventre, casal/ Descanso, livre lazer/ Loucura, vida realImyra, Tayra, Ipy/ Terceira cena: saber/ Que o índio que vive em ti/ É o lado mago em teu ser/ Se vim dos Camaiurá/ Ou das missões, guarani/ Nasci pr’a ti meu lugar/ Nação doente, Tupi/ Por isso vou me curar/ Da algema dentro de mim/ Por isso vou encontrar/ A gema dentro de mim/ Imyra, Tayra, Ipy/ A quarta cena é mostrar/ O que há de pedra no chão / O que há de podre no ar/ Criança em frente ao pilar/ Imaginando seu mar/ O mastro imenso, o navio/ A vela, o vento, o assobio/ É caravela, é alto-mar/ Até de novo acordar/ Pr’o que há de podre no chão/ Pr’o que há de pedra no ar/ Imyra, Tayra, Ipy/ A quinta cena é sofrer/ Cunhã curvada a chorar/ Tayra tensa a temer/ Fui companheira dos sós/ Fui protetora das leis/ Fui braço amigo de avós/ Até o rei perdoei/ Hoje faminta sou ré/ Como um cachorro vadio/ Arrasto inchado o meu pé/ Por chãos de fogo e de frio /Imyra, Tayra, IpyA sexta cena é esperar/ No céu branqueia Jacy/ Tatá verdeja no mar/ Vislumbre claro, visão/ Valei-me, meu pai! Que luz!/ Como se um trecho de chão/ Se erguesse em asas azuis/ Dobrando a curva do céu/ Pr’a mergulhar sobre o mal/ E o justo império de Ipy/ Chegasse ao mundo, afinal!/ Imyra, Tayra, Ipy/ A cena sete é um saci/ Pé dentro do ano dois mil/ No centro – sol do Brasil/ Aos sete dias do mês/ Um dia azul de leão/ Me deram vida vocês/ Dou vida hoje à expressão/ Quero essa língua outra vez/ Quero esse palco, esse chão/ Brinca Tupi-português/ Dentro do meu coração”

Um último detalhe que torna tudo ainda mais insólito: os direitos do disco foram comprados por produtores japoneses que lançaram no país uma versão em CD. Uma cópia dessa edição japonesa pode ser encontrada à venda no mercado livre por módicos R$ 599,00. Quem acha que um CD não vale tanto pode baixar o arquivo no UQT, digitalizado a partir do original em vinil.

Há ainda uma campanha na internet capitaneada pela filha do compositor, Imira, para repatriar a obra. A situação deixa a impressão que se naquela época o impedimento eram as forças ditatoriais, hoje o entrave é provavelmente um dos efeitos colaterais da repressão: o descaso e o desinteresse!


Postado em 15/01/2012 Blog!

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Sobre o autor

Makely Ka (Valença do Piauí, 1975) é um poeta cantor, instrumentista, produtor cultural e compositor brasileiro. Makely é poeta, compositor e agitador cultural. Atuando em diversas áreas como a música, a poesia e o vídeo. Incorpora à sua produção artística um componente crítico e reflexivo. Autodidata, desenvolveu uma poética musical própria, amalgamando elementos da trova e do aboio de herança ibérica às novas linguagens sonoras urbanas como o rap, do despojamento da poesia marginal ao rigor formal da poesia concreta.

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