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O som, a fúria e as andorinhas que virão

Kiko Klaus, Makely Ka e Pedro Morais formam um belo mosaico dos descaminhos apontados pela música de matriz popular feita em BH.

Jornal O Tempo de 02 de janeiro de 2009
Israel do Vale
A cena independente de música das Minas Gerais apagou as luzes de 2008 em grande estilo, com shows no Rio de Janeiro de três dos artistas de maior relevo na nova safra. Kiko Klaus, Makely Ka e Pedro Morais formam um belo mosaico dos descaminhos apontados pela música de matriz popular [e ímpeto roqueiro] feita atualmente em Belo Horizonte. Cada um ao seu jeito, demarcam com clareza o estágio de maturidade estética e de compreensão do novo papel do artista neste momento de impasse vivido pelo mercado do disco, mundialmente falando. Com referências variadas, os três mosqueteiros despiram-se de seus egos e desapearam dos interesses isolados para unir forças numa expedição de grande poder simbólico para o momento, na [ainda rara, no meio artístico local] linha do “um por todos e todos por um”.

É de se celebrar, especialmente, o enlace final que reuniu os três num improviso [indescritível, de tão bacana!] no segundo dos dois shows, na casa noturna Cinemathèque, em Botafogo – em que pese certo ar blasé de Makely, fazendo o tipo “tou aqui, mas não tenho nada com isso” e mandando ver num excepcional quase-free-style-proso-poético, em rap/ente. A Kiko Klaus já dediquei uma coluna inteira destas minhas mal-traçadas, recentemente, por ocasião do seu primeiro disco solo. E o show apenas reitera a coerência do seu posicionamento artístico, a organicidade entre discurso e performance, a consistência de arranjos cuidadosos, sem floreios excessivos. É de se notar, contudo, o momento especialmente feliz de uma geração talentosíssima dos jovens músicos [na maioria, na faixa dos 20 e poucos anos] que acumularam a retaguarda de Kiko e Pedro, assim como os que deram suporte a Makely. De Pedro Morais sou suspeito para falar. Mas faço questão de manifestar a felicidade de vê-lo alternar o palco com Kiko e Makely e do que esta aproximação possa ajudar a despertar nele, às vésperas da gravação de seu segundo disco – que terá produção do estrelado Chico Neves, uma das figuras ilustres da qualificadíssima platéia, ao lado de pares como Jongui e o sempre alerta Hermano Vianna, farol de todas as cenas.

Makely Ka foi para mim a maior das surpresas. Porque parece ter, finalmente, encontrado embocadura para o tom nervoso [irônico, ácido] das suas letras. Não é de hoje que o reputo no hall dos principais letristas da sua geração – e não apenas nas Gerais. Mas ainda não tinha visto uma interpretação sua que estivesse à altura delas. Cantor de limitações evidentes [embora eu duvide que ele seja capaz de admitir isso...], Makely talvez tenha renascido como vocalista a partir do nascimento de seu filho. Explico: Makely é casado com Maísa Moura, cantora de um timbre de voz terno, afinadíssima. Com a gravidez, a parceria artística que mantinha os dois juntos no palco teve de ser apartada em dado momento. E Makely precisou reinventar-se. Bom para os dois, aparentemente. A ponto de Maísa também ter lançado disco solo após isso. Cantar bem é um termo perigoso e quase abstrato – que o diga Chico Buarque, afinadíssimo em sua sublime voz de taquara rachada [e, sim, eu tenho consciência do risco de ser apedrejado nas ruas por falar algo assim].

Se cantar “direitinho” ou “bonitinho” fosse mesmo requisito essencial, talvez a influente cena pernambucana [onde isso parece ser tratado como crime inafiançável!] jamais houvesse existido. Do ponto de vista da performance, Makely vale-se no momento de uma retaguarda formidável, com uma banda de dominância jovem e uma pegada acentuada e firmíssima [nos quesitos pulsação e distorção], na medida certa. Na nova versão, turbinada e furiosa, Makely mantém-se atento ao sabor da poesia – uma fonte que lhe é cara, posta a serviço de princípios e inquietações potencializados pela sua formação em filosofia. E há margem ainda para lapidar isso no palco, sem dúvida – porque embora seja legítima a importância da compreensão das letras, é preciso dosar o impulso de explicar o contexto em que cada uma foi criada [ou será que elas não são capazes de falar por si, meu caro poeta?], em nome inclusive da fluência do show.

De outra forma: se toda letra precisa de legenda e se é preciso direcionar a sua interpretação, onde se abrigará o sentido expandido da poesia? Mas isso é mal menor, no conjunto da obra. Um detalhe apenas, no feliz exercício de um encontro geracional que merece ser festejado e replicado pelos palcos de Belo Horizonte, do interior de Minas e de outros Estados. Porque na nova ordem digital, em qualquer cena que mereça ostentar o termo, nenhum artista sozinho faz verão.

Israel do Vale, 41, é gerente-executivo de conteúdo da TV Brasil, e escreve neste espaço aos sábados. israeldovale@uol.com.br

Postado em 06/01/2009 Blog!

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Sobre o autor

Makely Ka (Valença do Piauí, 1975) é um poeta cantor, instrumentista, produtor cultural e compositor brasileiro. Makely é poeta, compositor e agitador cultural. Atuando em diversas áreas como a música, a poesia e o vídeo. Incorpora à sua produção artística um componente crítico e reflexivo. Autodidata, desenvolveu uma poética musical própria, amalgamando elementos da trova e do aboio de herança ibérica às novas linguagens sonoras urbanas como o rap, do despojamento da poesia marginal ao rigor formal da poesia concreta.

(4) respostas

  1. makely
    06/01/2009 de 03:16 · Responder

    Tá certo, esse assunto já deu! Bola pra frente…

  2. Renato Villaça
    06/01/2009 de 16:47 · Responder

    anda bem acompanhado, vc heim…

    tive boas notícias dos shows. tomara que compensem essa crítica.
    rarara!!!

    abraço.

  3. Cristiano Dimas Dos Santos
    15/01/2009 de 12:32 · Responder

    Makely e um daqueles camaradas que guarda em si o para si!!Expurga a mesmice comtemporanea degenerativa da arte.Corta pela raiz o enfoque tradicional, de que o espectador seja somente uma engrenagem passiva do produto final.
    Cristiano Santos

  4. MatHeuS MatHeuS
    21/01/2009 de 15:20 · Responder

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