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Chegada a Cordisburgo

Saí de Araçaí com o sol já alto, no topo do céu.

Contra todas as recomendações atalhei pela estrada de terra rumo a Lagoa Bonita, uma volta de 20km a mais até Cordisburgo. Pelo asfalto seriam apenas 12Km. Meu caminho não é reto, sigo enviesado o rumo incerto. Subi o platô e encontrei os primeiros eucaliptais, que substituíram a vegetação original e encobrem os afloramentos e as formações cársticas do Grupo Bambuí, formado por rochas de origem marinha e visíveis no cerrado. No início só de um lado da estrada, depois fechando o horizonte, muitos quilômetros e apenas um Pequizeiro aqui, uma Caviúna ali, um Pau Terra solitário mais adiante, os troncos retorcidos resistindo a lembrança do cerrado que já houve ali. Numa curva da estradinha o encontro inesperado com uma siriema solitária e assustada, que passou fácil pela cerca de arame e sumiu no labirinto de coníferas. Me lembrei da música com meu parceiro Renato Villaça, que fiz sob encomenda do projeto Multiplicadores, onde trabalhei com adolescentes em situação de risco. A situação aqui também é de risco. Lagoa Bonita é um desses povoados perdidos no cerrado. As casinhas se enfileiram na extensão da rua principal até a praça da Igreja do Rosário, depois seguindo até a de Santo Antônio, padroeiro da cidade. Como que para confirmar o encontro fui comer no único lugar onde serviam refeição na cidade, o Canto da Siriema, uma deliciosa comida de fogão a lenha preparada pela Dona Maria de Fátima, belorizontina criada no bairro São Cristóvão que mora aqui há mais de 30 anos. Ela me conta que a festa do Divino, que emenda com a do Rosário é animada, e me convida a voltar no ano que vem. Me diziz que as siriemas cantavam aqui próximo da cidade todas as manhãs, mas hoje com a devastação é muito raro topar alguma delas. Aqui dá pra ouvir Apóca: ouça!!

No caminho, com muito mais subidas do que eu havia previsto, perdi outro raio. Me dei conta que deveria ter colocado raios duplos nas duas rodas, principalmente na traseira que suporta mais peso. Coloquei raios reforçados somente na roda dianteira por causa do cubo-dínamo, mais grosso e pesado que um normal. Tenho de encontrar uma oficina.

Chego em Cordisburgo sob um céu azul de fim de tarde salpicado de stratus. Nenhum sinal de nuvens carregadas. Aqui também eu passei com o caminhão-palco do Expresso Melodia. Montamos em frente ao Museu Guimarães Rosa. Sigo direto pra lá e encontro uma pensão exatamente ao lado, onde me hospedo.

Com sinal de celular pela primeira vez desde Sete Lagoas consigo fazer a conexão para atualizar o site e as redes sociais com os primeiros relatos. Surpresa foi abrir a caixa de mensagens e encontrar esta mensagem:

“Boa tarde Makely,

Tudo bem?

Sou moradora de Cordisburgo e estou encantada com seu Projeto! Olhei aqui seu trajeto e vi que Cordisburgo não está no seu roteiro. Eu e o Brasinha, um grande conhecedor da obra do escritor (Guimarães Rosa), ficaríamos muito felizes se vc passasse por aqui, para conhecer o Grupo Miguilim Contadores de Estórias, o Museu Casa Guimarães Rosa, Grupo Caminhos de Sertão, Empório do Brasinha, Portal Grande Sertão, Gruta do Maquiné…

Será um prazer recebê-lo aqui em nossa cidade!!!

Caso venha, nos faça o contato!!!

Atenciosamente,
Rachel Oliveira”

Postado em 24/07/2012 Cavalo Motor

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Sobre o autor

Makely Ka (Valença do Piauí, 1975) é um poeta cantor, instrumentista, produtor cultural e compositor brasileiro. Makely é poeta, compositor e agitador cultural. Atuando em diversas áreas como a música, a poesia e o vídeo. Incorpora à sua produção artística um componente crítico e reflexivo. Autodidata, desenvolveu uma poética musical própria, amalgamando elementos da trova e do aboio de herança ibérica às novas linguagens sonoras urbanas como o rap, do despojamento da poesia marginal ao rigor formal da poesia concreta.

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