O roque brasileiro dando outro passo à frente*

Na virada da década de 1970, o Brasil era um país predominantemente rural – mais de 50% da população ainda vivia no campo. Makely Ka nasceu depois, quando a maior parte destas pessoas já havia se encontrado nas cidades. O processo do êxodo rural trouxe para a selva de cimento, compartilhando bairros e favelas, gente de origens e culturas diferentes, postas em contato entre si e com o mundo externo pelos meios de comunicação de massa a que passavam a ter acesso. Este processo teve marchas e contramarchas, movimentos diversos: Tropicália; a turma que foi chamada Nordeste 1970 (Alceu, Elba e Zé Ramalho, Geraldo Azevedo, Ednardo, Belchior, Vital Farias), uma música que veio com os migrantes; BRock dos anos 1980; Mangue Beat. Cada uma destas ondas se apropriava de mais um elemento para fazer, fundamentalmente, canção popular, música urbana.

Makely Ka é um urbanoide, é um não roqueiro brasileiro que fez um álbum de roque (com esta grafia mesmo). É também descendente direto, resultante de cada um dos movimentos que citei acima. Makely faz música urbana em seu sentido estrito: música da urbe, do encontro de heterogêneos, de tradições muito diversas entre si que se modificam e se fundem em novas. Assim como cada um destes movimentos, ele promove em sua música a atualização dos elementos que vieram à cidade (não apenas) nas últimas décadas, seja “de dentro”, seja “de fora”, e a formata a partir destes encontros.

Makely traz em sua identidade o território da cidade, chama a responsabilidade para si. Eu vim lá da Bahia de mucama com feitor: (Maria Moita, letra de Vinícius de Moraes para Carlos Lyra, citada em Reator). A herança cultural diversificada se condensa na figura individual, a História se passa nas pessoas. Makely canta frequentemente na primeira pessoa: como a geração BRock cantava eu uso óculos, a gente somos inútil, Makely, canta eu não sou índio, não sou negro, eu não sou branco, definindo-se pela negação e recusando categorizações e estereótipos; eu me alimento da carniça do meu pensamento – a autofagia como um corolário da antropofagia, sua radicalização.

A identidade estilhaçada da cidade deixa emergir novas pluralidades. Por Makely não ser nada especificamente, sua música pode ser tudo, e efetivamente nela, sob a capa do rock e da programação eletrônica, tambores de congada, coco e outros batuques diversos são nitidamente audíveis. A autofagia é como uma segunda fase da antropofagia: a autodeglutição, a segunda digestão, segunda assimilação. O que chegou à cidade formou novas linguagens, e agora estas linguagens tornam a se fundir, gerando uma segunda música urbana, reouvida, reprocessada. A urbe se torna metrópole, e esta megalópole.

Embora a virulência de letras e arranjos, mais da metade das faixas se inicia apenas com um violão, como muitas das gravações dos Novos Baianos, dos primeiros a percorrerem este caminho, da Bahia para uma cobertura em Botafogo e daí para um sítio em Jacarepaguá. Makely é mineiro, e tem portanto sua própria carga cultural, seu próprio viés, que inclui Guimarães Rosa (Soroco), mas também o movimento punk, descascando sua cópia barata em Punk de Butique. Inclui nas gravações as vozes de Glauber Rocha, Hugo Chavez, Subcomandante Marcos, bem a propósito: Queremos dirigir umas palavras especiais para os que vivem e lutam e morrem nas cidades.

Makely conta, em entrevista ao jornalista Pedro Alexandre Sanches, que ao tocar a canção A outra cidade na TV Minas, a TV de cultura do estado, e dedicá-la ironicamente ao governador Aécio Neves, tornou-se persona non grata no jornalismo da emissora. A outra cidade soa como uma resposta a A cidade, de Chico Science. Se antes Makely corporifica a territorialização, agora faz o caminho inverso, territorializa o corporificação, e explicita, militante: a cidade de que fala não é a homogeneizadora, higienizadora, máquina de moer gente. É a outra, a que sobrevive a esta. Ele fala dos sobreviventes das cidades, e das cidades sobreviventes.

A música de Makely Ka é um passo à frente nesta história. Um retrato do estado da urbe, da música urbana que Renato Russo cantou, no meio do caminho entre a Tropicália e o Mangue Beat. No MySpace, Makely afirma dialogar com nomes como Itamar Assumpção, Paulo Leminski, Jorge Mautner, Torquato Neto, Tom Zé, Waly Salomão e Jards Macalé. Em comum, a origem tropicalista da maioria, aliada à tremenda dificuldade de classificação de suas obras, à independência total de suas criações, à capacidade de se manterem sempre em movimento. São boas referências na selva de concreto. Um passo à frente, e você não está no mesmo lugar, cantou Chico Science. Toda vez que eu dou um passo o mundo sai do lugar, cantou Siba. A cidade avança, e também sua música.

P.S. Além da atividade estritamente artística, Makely também tem uma atuação política em defesa dos interesses da classe artística, da atualização do direito autoral, entre outras coisas, que está intrinsecamente ligada à sua música, e igualmente interessante. Apenas me relatei aos aspectos apenas musicais aqui, por questão de foco. Mas a visita ao sítio dele vale por isso também.

Túlio Ceci Villaça é um músico-pensador carioca que se debruça sobre a canção brasileira. Ele acaba de publicar em seu blogue esse texto contundente e esclarecedor sobre o meu disco “Autófago”.  Às vezes você lança um trabalho e o retorno vai se dando ao longo dos anos, o caldo vai engrossando com o tempo. Alguns aspectos levantados pelo Túlio nessa crítica foram sendo re-significados nos últimos anos e ele vai exatamente ao ponto: “é um não roqueiro brasileiro que fez um álbum de roque”. O curioso é que esse disco foi produzido por outro Villaça, o Renato, que por sua vez não é parente do Túlio!

Aproveite para dar uma volta pelos outros postes de luz que iluminam temas muito interessantes sobre a canção brasileira, essa nossa velha (des)conhecida: http://tuliovillaca.wordpress.com/

Transoceânica

Foto: Ruddy [http://rudiadventure.blogspot.com/2009_12_01_archive.html]

Pela Transoceânica
Atravessar a floresta
A planície amazônica
Até o Pacífico

Pela Transoceânica
É tudo o que resta
Da viagem homérica
A caminho de Ítaca

Essa vai ser nossa grande aventura
Vamos à pé, de bicicleta
Não precisamos de tanta estrutura
Pra viver uma vida justa

Pra sentir o vento no rosto
Fome, sede, passar frio
Lembrar que estamos vivos
Basta viver o risco e aceitar o desafio

Pela Transoceânica
Atravessar a floresta
A planície amazônica
Até o Pacífico

Pela Transoceânica
É tudo o que resta
Da viagem homérica
A caminho de Ítaca

Pra ultrapassar o futuro
Vamos de carona, de motocicleta
Do Titicaca a Macchu Pichu
Onde os Incas faziam festa

A aduana não cobra impostos
Para atravessar o rio
Vamos subir os Andes pelas encostas
Cruzar o Madre de Dios

Pela Transoceânica
Atravessar a floresta
A planície amazônica
Até o Pacífico

Pela Transoceânica
É tudo o que resta
Da viagem homérica
A caminho de Ítaca

Imyra, Tayra, Ipy


Faço aqui um breve relato da impressão que me causou a audição desse disco que chegou até mim por um desses acasos do destino. Consegui algumas informações na rede, falei com pessoas que conviveram com o autor, entrei em contato com uma das filhas. Sei que vou escrever mais sobre ele em um momento mais oportuno e é provável que eu fale sempre dele daqui pra frente, já que minhas referências são recorrentes, insistentes e autoreferentes!

Taiguara é dono de uma das trajetórias mais inusitadas da música brasileira. Nascido por acaso em Montevideo, terra de Lautreamont – a maior referência dos surrealistas no início do século XX-, o filho do maestro e bandoneonista Ubirajara Silva e da cantora Olga Chalar incorporou elementos do surrealismo europeu e da literatura fantástica latino americana não só na sua inacreditável obra, mas na sua vida de uma forma bela e trágica.

O nascimento no Uruguai é somente mais um dado biográfico improvável que torna tudo mais curioso ainda na história desse que foi um dos compositores mais brasileiros no sentido dialógico e transgressor dentro de uma tradição musical que se consolidou no decorrer do século passado. O nascimento no Uruguai guarda a mesma ironia que cerca o birmanês Nick Drake, num acaso do destino que escolheu o longíquo país asiático para ver nascer um dos compositores mais influentes na música inglesa a partir dos anos 70.

Pra começar é preciso dizer que Taiguara foi dos artistas mais censurados do país durante a ditadura e isso, como não poderia deixar de ser, marcou profundamente sua vida e sua obra. Foram mais de cem canções vetadas pelos censores. Esse número dá conta de toda uma obra e seria motivo suficiente para qualquer pessoa sensata no mínimo pensar em mudar de ramo, antes de tomar atitude, digamos, mais radical. Ao invés disso o uruguaio partiu pra cima e acirrou o discurso. Exasperado com a perseguição e impedido de continuar trabalhando no Brasil ele se auto-exilou na África – destino incomum para exilados políticos – seguindo depois para a Europa. Nesse período aprofundou seus vínculos com a resistência cultural incorporando elementos de outras culturas que dialogam em sua obra com a tradição musical brasileira. Suas canções passaram a assumir um sentido agudo de liberdade ao mesmo tempo em que incorporava uma urgência na transgressão dos limites estéticos da canção, numa relação orgânica e indissociável entre letra, música e posicionamento político.

Essa opção radical fica clara no disco “Imyra, Tayra, Ipy”, gravado ao longo de 75 e ‘lançado’ no ano seguinte, no retorno do exílio. Um dos discos mais instigastes e exuberantes da vasta e rica discografia setentista, para esse trabalho Taiguara convocou uma orquestra com nada menos que 80 integrantes e chamou o endiabrado maestro Hermeto Paschoal para auxiliar nos arranjos e na direção musical, num período em que o bruxo albino ainda se interessava por e colaborava com cancionistas. Entre os músicos convocados constavam ainda nomes como o de Wagner Tiso, Toninho Horta, Nivaldo Ornelas, Jacques Morelenbaum, Novelli, Zé Eduardo Nazário e seu pai Ubirajara Silva entre outros. O disco que radicalizou o discurso contra a repressão sem abrir mão do experimentalismo musical e do esgarçamento dos limites da canção foi recolhido em tempo recorde por uma ditadura atônita, num período em que a dita já era supostamente mais branda. Menos de 72 horas após ser distribuído o disco foi recolhido das lojas, para nunca mais ser lançado oficialmente no mercado nacional.

Sem fazer concessões, o compositor espeta com lâmina afiada a ferida aberta em versos duros e pungentes como “como é que você vai me dar o que já é meu /  como é que você vai criar o que já nasceu / como é que você resolveu que sou livre agora / você esqueceu que só quem pode me libertar sou eu? “.
Ou ainda nos sintomáticos versos onde trata explicitamente dos percalços com a repressão e a censura, a relação ambígua com o país como exilado/ estrangeiro, o prenúncio da condição de mártir incompreendido:

“Minha amada amordaçada / de amor forçado a se calar / meu peito guarda o sangue brando / que ainda por ti vou derramar”

A mais bela e enigmática do disco no entanto me parece ser essa “Sete cenas de Imira”, que disponibilizo aqui e que não pára de rodar na minha cabeça há dias. A engenharia de construção dessa canção formidável, que remete a um moto-contínuo, evocando uma mitologia indígena tão familiar e ao mesmo tempo tão estranha, o contraponto das vozes, toda a complexidade a serviço de uma canção aparentemente simples do ponto de vista formal, me lembra de um lado a falsa simplicidade de clássicos como “Àguas de Março”, mas lembra também o destino trágico de obras que ousaram desafiar seu tempo como o “Guesa Errante” de Sousândrade:

Imyra, Tayra, IpyPrimeira cena: o nascer/ Do beijo de Ara rendyJemopotyr – florecer/É gema, é germe, é gen-luz/ Imyra brilha no ar/ Corou vermelho e azul/ Por sobre o virgem rosar/ É rosa gente, é razão/ É rosa umbilicalJukira, sal, criação/ Potyra, flor-animal /Imyra Tayra, Ipy/ Segunda cena: crescer/ Ferir o espaço e abrir/ A flor primal de mulher/ Figura, cor, rotação/ Calor, janela, pombal/ Palmeira, morro, capim/ Moreno, ponte, areal/ Retina, boca, prazer/ Compasso, ventre, casal/ Descanso, livre lazer/ Loucura, vida realImyra, Tayra, Ipy/ Terceira cena: saber/ Que o índio que vive em ti/ É o lado mago em teu ser/ Se vim dos Camaiurá/ Ou das missões, guarani/ Nasci pr’a ti meu lugar/ Nação doente, Tupi/ Por isso vou me curar/ Da algema dentro de mim/ Por isso vou encontrar/ A gema dentro de mim/ Imyra, Tayra, Ipy/ A quarta cena é mostrar/ O que há de pedra no chão / O que há de podre no ar/ Criança em frente ao pilar/ Imaginando seu mar/ O mastro imenso, o navio/ A vela, o vento, o assobio/ É caravela, é alto-mar/ Até de novo acordar/ Pr’o que há de podre no chão/ Pr’o que há de pedra no ar/ Imyra, Tayra, Ipy/ A quinta cena é sofrer/ Cunhã curvada a chorar/ Tayra tensa a temer/ Fui companheira dos sós/ Fui protetora das leis/ Fui braço amigo de avós/ Até o rei perdoei/ Hoje faminta sou ré/ Como um cachorro vadio/ Arrasto inchado o meu pé/ Por chãos de fogo e de frio /Imyra, Tayra, IpyA sexta cena é esperar/ No céu branqueia Jacy/ Tatá verdeja no mar/ Vislumbre claro, visão/ Valei-me, meu pai! Que luz!/ Como se um trecho de chão/ Se erguesse em asas azuis/ Dobrando a curva do céu/ Pr’a mergulhar sobre o mal/ E o justo império de Ipy/ Chegasse ao mundo, afinal!/ Imyra, Tayra, Ipy/ A cena sete é um saci/ Pé dentro do ano dois mil/ No centro – sol do Brasil/ Aos sete dias do mês/ Um dia azul de leão/ Me deram vida vocês/ Dou vida hoje à expressão/ Quero essa língua outra vez/ Quero esse palco, esse chão/ Brinca Tupi-português/ Dentro do meu coração”

Um último detalhe que torna tudo ainda mais insólito: os direitos do disco foram comprados por produtores japoneses que lançaram no país uma versão em CD. Uma cópia dessa edição japonesa pode ser encontrada à venda no mercado livre por módicos R$ 599,00. Quem acha que um CD não vale tanto pode baixar o arquivo no UQT, digitalizado a partir do original em vinil.

Há ainda uma campanha na internet capitaneada pela filha do compositor, Imira, para repatriar a obra. A situação deixa a impressão que se naquela época o impedimento eram as forças ditatoriais, hoje o entrave é provavelmente um dos efeitos colaterais da repressão: o descaso e o desinteresse!


Entrevista para o jornalista Pedro Alexandre Sanches

Publicado originalmente em Farofafa

Brasil, anos 2000: do aboio ao sonar, parte 1

Pedro Alexandre Sanches

Quase dá vontade de pensar no “Zé do Caroço” de Leci Brandão, “está nascendo um novo líder/ no Morro do Pau da Bandeira”. Mas estamos aqui mais no território dos filhotes de Gilberto Gil – do Gil tropicalista de quatro décadas atrás e do Gil ministro do Min(im)istério da Cultura de oito ou menos anos atrás.

Agora mesmo, enquanto a gente pisca o olho, está nascendo um novo tipo de artista da música, em vários cantos do Brasil. A velha indústria desmoronou, um disco não vale mais um tostão etc. e tal. O mineiro nascido no Piauí Makely Ka é um entre dezenas, centenas, se não milhares e milhões, de zés do caroço da música brasileira dos anos 2000. Eles crescem em muitos morros do pau da bandeira, e talvez você e eu nem tenhamos os notado ainda, principalmente se estivermos ocupados demais resmungando de “como anda parada a música brasileira” ou de que “já não se fazem mais chicos e caetanos como antigamente”.

Você terá de acreditar em mim para continuar neste texto e acompanhar a entrevista relativamente longa que se segue. Mesmo que nunca tenha ouvido falar de Makely Ka. Mesmo que não entenda por que um paulistano nascido no Paraná vai parar no Acre entrevistando um mineiro que nasceu no Piauí, para que ele fale de sua música (que música?) e de sua atuação política (hein?, atuação política?).

Lado a lado com a Cooperativa da Música do Acre, Makely é um dos organizadores do I Seminário Nacional de Cooperativismo Musical, que acontece aqui em Rio Branco. Presidente da Cooperativa de Música de Minas Gerais, ajuda a reunir zés do caroço como ele, que antes viviam invisíveis em seus respectivos paus de bandeira. A prática (não se trata uma teoria), em tudo oposta às das antigas gravadoras de discos e editoras de “direitos”, aposta num desenvolvimento colaborativo – e não competitivo – de cada um de seus mais de 300 associados. Makely afirma, alto e bom som, que deve muito do despertar disso que poderíamos chamar de artista-cidadão à semeadura inaugurada por Gilberto Gil à frente do MinC.

Evidentemente, não estamos aqui para falar de política (estamos?). Eu conhecia os discos de Makely e seus parceiros em Minas, mas os ouvia talvez com aquela cara tipicamente paulista de muxoxo, meio de bode com o que me parecia, à distância, mais alguma safra indigesta de MPB universitária (como se MPB já não fosse universitária desde o berço…).

Aqui, além de debates e discussões que não param o dia inteiro, pude assistir a um show do artista no lindo Cine Teatro Recreio. Além do discurso literário-musical espirituoso (e da militância político-musical, que eu também conhecia de longe), me vi transportado – pelos violões (e viola caipira), pelas sonoridades mouras, africanas e nordestinas, por certas letras que cutucam um diálogo com os muitos Brasis que o Brazil com Z não conhece – a uma das escolas mais vigorosas de música brasileira e mineira.

Não, não estou falando do clube da esquina, mas sim de um saber musical que, por falta de nome, batizo por um instante de escola Bosco-Blanc, escola mineira-carioca dentro da qual cabe bem mais que um país. Os espectros do João Bosco e do Aldir Blanc, principalmente daquele samba-MPB popularíssimo das décadas de 1970 e 1980, habitaram nessa noite o teatro de madeira da capital do estado natal de João Donato.

No show, houve rap, e ciranda, e martelo, e aboio, e (sim) MPB, e moda de viola, tudo na cadência bonita dos (não-)sambas dos zés do caroço. E houve “Código Aberto” (o título já diz muito), que integra e atualiza o “tudo é perigoso/ tudo é divino, maravilhoso” do ex-ministro tropicalista em “sei que viver é perigoso/ nunca houve uma época segura/ o perigo também é prazeroso”.

Mais uma vez, tenho a pedir, qual um jornalista-político, seu voto de confiança para estar atento e forte para as palavras e histórias que vêm abaixo – até sobre uma história pouco popular na “grande” mídia, sobre um tal manifesto do cantor e compositor Sérgio Ricardo (aquele que quebrou o violão em 1967) que Chico Buarque a princípio subscreveu e depois voltou a trás, supostamente a “pedido” da irmã hoje chefe do minimistério da (contra)cultura, Ana de Hollanda.

Ainda que nunca tenha ouvido falar de Makely Ka, aí abaixo vai um resumo de assuntos presentes, essenciais para todos nós que gostamos de música etc., e a história dos melhores anos de nossas vidas, estes nos quais os brasileiros temos aprendido a nos portar como adultos e a gostar de nós mesmos como somos, não como outros (não) gostariam que nós (não) fôssemos. A nova música brasileira está viva e pujante no coreto da praça, mas é preciso ter olhos e ouvidos bem abertos para não ficar apenas esperando ela passar, carolina ou lindoneia, pela janela imóvel.

Pedro Alexandre Sanches: De onde vem seu nome? É verdadeiro?

Makely Ka: É, meus pais criaram os nomes. Eu sou o mais velho, Makely, aí vêm Makeline, Makênia, Maken e Makeber. Quando os irmãos nasciam, eu e minha irmã fazíamos as listas e íamos pro hospital pra minha mãe escolher. Eles falam que foi um filme que eles viram, mas dizem que isso é uma mania de famílias nordestinas. O Ka eu incorporei, é uma homenagem a um poeta russo, Klebnikov, que tem um livro chamado Ka, que inspirou os futuristas.

PAS: Qual é o sobrenome verdadeiro?

MK: É Oliveira Soares Gomes.

PAS: Você nasceu no Piauí?

MK: Nasci em Valência do Piauí, no sudeste do estado, a 300 quilômetros de Teresina. Meu pai é do Piauí, foi trabalhar em Brasília, como operário. Foi transferido pra Belo Horizonte, e de lá, visitando o interior do estado, conheceu a minha mãe, que é de Barão de Cocais, próximo ao Parque do Caraça. Casaram e foram pro Piauí, depois voltaram, e eu fui criado a partir dos 3 anos em Minas. Depois descobri que eles voltaram pro Piauí porque minha mãe se casou grávida, e minha avó materna, beata, não podia saber. Eles ficaram escondidos numa fazenda, pra anunciar que eu tinha nascido três meses depois, pra dar o tempo.
Minha irmã foi registrada um mês depois, porque ela tem uma diferença de 11 meses de mim, não daria tempo. Essa fraude durou até recentemente (risos).

PAS: Você sabia seu aniversário errado?

MK: A vida inteira era errado. Com 20 e poucos anos a gente descobriu. Minha irmã fez o mapa astral e não batia nada, ela falou: tem alguma coisa errada.

PAS: Sua avó está viva? O que ela achou o que ao saber?

MK: Está viva. Ela não sabe ainda (risos).

PAS: Ela não deve ler FAROFAFÁ

MK: (Risos) Tenho dois aniversários. O real é 26 de junho – gosto muito dessa data, é a data do Gil, e descobri que ele fez uma música no dia que eu nasci. E tem a outra data, que é 26 de setembro, comemoro as duas.

PAS: Sobre etnia, vejo que você é misturado, mas não sei de quê.

MK: É, tem um pouco de árabe, negro, índio e português. Quando vou pra Europa, na Espanha, eles me consideram árabe. Aliás, a única vez que senti algum preconceito foi lá. Eu estava no metrô em Madri, com uma mochila pesada, e tinha um banco com um árabe caracterizado, e ninguém sentava com ele. Eu estava pesado, fui sentar do lado, ele fez um gesto de gratidão, e todo mundo ficou me olhando, todo mundo se afastou, ninguém chegou perto. Eu nunca tinha sentido isso.

PAS: Como e por que a música entra na jogada?

MK: A família do meu pai é uma família de vaqueiros, que têm uma tradição de aboio. Tenho essa relação muito forte com a música nordestina e o aboio por essa tradição familiar. E da parte da minha mãe tenho um tio que tinha uma escolinha de violão, e eu aprendi com ele. A gente tinha uma formação de música brasileira, a gente aprendia a tocar as músicas, mas no colégio, nos anos 1980, não podia tocar música brasileira. Era considerado cafona, brega. Mas eram as músicas que a gente aprendia, Milton Nascimento, Caetano Veloso, Chico Buarque.

PAS: Levava vaia se tocava?

MK: A gente nem tocava, já tinha uma pré-censura. Na adolescência, eu ouvia rock’n’roll, camisa preta, teve aquela negação.

PAS: Você foi pego ali, no manguebit? Qual é sua idade?

MK: Eu tenho 36, ou 35 pela outra data (risos). O manguebit possibilitou um desenvolvimento de carreira de novo, fazendo música brasileira, sem estar ligado a um nicho tão específico.

PAS: O show que vi ontem (quinta-feira) é brasilidades de todos os lados… Mas você está dizendo que já foi roqueiro de camisa preta. Você teve que fazer algum tipo de ruptura?

MK: É, no início dos anos 1990, aquele momento do grunge, a gente ainda estava naquela rebordosa do rock Brasil, e e a música brasileira ainda não estava tão liberada. Ela nunca deixou de ter prestígio, mas foi perdendo público, perdendo espaço na imprensa. Nesse sentido acho que o movimento mangue recupera.

PAS: Mas aí a axé music também, por outro viés.

MK: Também, a axé music, como diz Jorge Mautner, é uma tradução do tropicalismo, que ela traz pra grande massa. A importância do manguebit é que ele traz a crítica, traz o intelectual de novo pra pensar a música brasileira dentro dessa perspectiva. Teve um período que a gente ficou sem essa crítica, né? É muito significativo o aval tanto do Ariano Suassuna quanto do Hermano Vianna, que são talvez extremos da coisa da brasilidade, um que recusa tudo e o outro que considera tudo.

PAS: E você foi para a formação musical tradicional?

MK: Não, eu nunca estudei música, sou analfabeto musical Fiz faculdade de filosofia, a música foi uma relação que veio da poesia. Comecei em 1998, lançando um livro de poesias, depois comecei a musicar uns textos e a fazer uns espetáculos de poemas falados, com uma cantora que me acompanhava, Sílvia Gomes. Entrei nesse universo da música mesmo depois que estudei em Ouro Preto, fui pra Belo Horizonte e comecei a atuar. A gente morava numa casa que dividia entre vários artistas, atores, cineastas. E teve um momento que a gente considera inaugural dessa nossa cena mineira, belo-horizontina, que foi o Reciclo Geral. Em 2002 a gente montou uma mostra de composições inéditas, que reuniu mais de 70 músicos, só com novos compositores apresentando só músicas inéditas. A gente fez no espaço dos catadores de papel, o Reciclo Geral era uma forma de incorporar a noção de reciclagem que eles estavam propondo. Tinham acabado de inaugurar esse espaço, faziam o cenário e a gente propunha uma nova música reciclada, devolvendo tudo que a gente tinha ouvido.

PAS: Havia uma comunicação real com os catadores? Em geral classe média faz música, mas não convive com o pessoal que faz rap, por exemplo.

MK: Havia, porque o espaço foi criado por eles. A gente fazia oficinas de música com eles, e eles davam oficina de reciclagem de material pra gente. Era muito interessante.

PAS: Isso me lembra esse seu rap que você pontua no show, “você me diz que é artista/ artista você não é”…

MK: Isso foi uma brincadeira com a minha avó, de ela sempre falar: “Mas, meu filho, você já arrumou emprego?”. E eu: “Mas, vó, eu trabalho com música”.

PAS: É a mesma avó que não pode saber que sua mãe casou grávida?

MK: É (risos). “Mas vó, eu trabalho com música.” “Mas eu nunca te vi na televisão, meu filho.” “Mas vó, a gente aparece na TV Cultura, na TV Minas, a senhora só assiste Globo e SBT, a gente não vai aparecer no programa do Faustão nem do Ratinho.” “Meu filho, você fica fazendo isso, mas arruma um cartão pra bater.” Enfim, aquele foi nosso momento inaugural, também porque a gente começou a se posicionar como artista num estado que tem esse peso quase esmagador do clube da esquina. Naquele momento não tinha interlocução nenhuma com eles. A geração do pop também não tinha essa interlocução. Hoje, talvez a gente tenha mais interlocução com o clube que com a geração Skank, Jota Quest e Pato Fu. Com o clube a gente teve interlocução, também porque em 2003 eu e mais dois compositores, Kristoff Silva e Pablo Castro, lançamos um disco-manifesto claramente inspirado no clube da esquina, mas também negando ele um pouco, como uma forma de diálogo de geração.

PAS: Vocês classificaram como um disco-manifesto mesmo? Atualmente todo mundo foge desse rótulo…

MK: É, porque a gente reuniu aquela geração, era programático.

PAS: Qual era o manifesto, resumindo?

MK: A gente propunha “A Outra Cidade”, porque Belo Horizonte sempre era a cidade que estava fora do circuito, que não tem uma tradição reconhecida, tanto que todo mundo foi pra fora pra ser reconhecido lá em Minas.
A gente estava falando de outra cidade, que estava ali e não era cartão postal. A gente fala da rodoviária, dos camelôs, de uma outra relação com a cidade. Belo Horizonte não tem isso que o Rio e São Paulo têm, de os músicos gostarem de falar da cidade. A gente falou: não, a gente tem uma cidade, a gente vive aqui.

PAS: De longe, de São Paulo, e sem entender muito nem me interessar muito, me pareceu mais uma turma de MPB tradicional surgindo. Começo a achar que estava enganado…

MK: Eu vinha dessa formação com a poesia, com a música nordestina, e vinha sendo muito solicitado pra fazer letras. Tem muito pouco letrista atuando. O Kristoff é um cara que tem formação acadêmica e é uma referência pra todos os músicos, tem um trabalho de excelência como cantor, harmonizador, instrumentista, professor da UFMG. E o Pablo é um cara que vinha da experiência da noite, tinha uma banda cover dos Beatles, mas tocava todo o repertório do clube da esquina, João Bosco, Edu Lobo. Ele falava da música 3 do lado B do disco do Beto Guedes de 1974, nem os caras lembram mais o que é isso. Eram formações muito diferentes, e a gente juntou e chamou todo mundo que a gente conhecia naquele momento pra tocar no disco. Tem faixas que têm a Orquestra Mineira de Rock, grupos de percussão, quarteto de cordas, cravo… Tinha essa diversidade, mas basicamente a proposta de trabalhar a harmonia, a escola harmônica mineira, dentro dessa concepção nova que a gente vinha trazendo.

PAS: Esse foi o seu primeiro disco?

MK: Foi, mas eu já vinha fazendo um trabalho com a Maísa Moura, a gente lançou um disco juntos, Danaide, em 2006.

Quando fiz Autófago, em 2008, fiz um disco com uma pegada mais rock’n’roll. Ele veio no mesmo ano que o Kristoff também lançou o disco dele, com cinco músicas minhas. A gente tem um diálogo, uma espécie de competição saudável, eu não podia lançar um disco de MPB no mesmo ano que o Kris estava lançando um disco. Ele canta e toca muito melhor do que eu. E aí eu fiz um disco mais político, mais barulhento. Não que fosse um disco pensado a partir do disco dele, mas depois fui perceber que foi uma forma de distanciar. Enquanto ele fazia um disco com quarteto de cordas, eu fiz um disco com duas guitarras sujas, barulhento, com palavrão, e uma pegada política mais forte. Minas é um estado muito conservador, é uma forma de provocar. “A Outra Cidade”, que gravei no Autófago, tem um texto chamado “Linha Branca”, que é uma crítica bem-humorada até, a uma certa cristalização política no estado de Minas. Tive problemas com ela, de tocar no jornalismo da TV Minas, ao vivo, e oferecer ela pro governador.

PAS: Ao governador Aécio Neves? E o que aconteceu?

MK: Ao Aécio. Aconteceu que sou persona non grata no jornalismo da TV Minnas, a TV de cultura do estado. Até faço outros programas, mas esse não, por eles acharem que foi uma falta de respeito… São essas coisas que incomodam, mas é a nossa função também, né? (Recita o texto, meio em tempo rápido de rap.) “A cidade não explode, mas não se contém/ ela cada dia tem mais carros, sem metrô nem trem/ esse trânsito catravo entra em colapso/ um espaço entre as carcaças convida ao esbarro/ se eu não morro eu me mato de nervo ou cansaço/ mas não ando a pé aqui no sol, no céu, mormaço/ eu não reconheço, eu não tenho salvo-conduto e o governador planeja um novo viaduto/ quem tem grana sai da selva/ a salvo em condomínio/ quem não tem tem de render o seu salário mínimo/ eu me pico, eu me capo, eu me regenero e uma puta não é páreo pro meu aparelho/ eu me culpo, mas escapo de papo Lutero se chuto a santa/ taco fogo em monastério/ queimo o sacripanta, abro conta no estrangeiro/ e quem é contra eu mando pro chuveiro/ eu sou o único que presta no país inteiro/ esse é o novo código de conduta do Brasil real de um neto filha da puta do homem cordial”.

PAS: E você dedicou ao governador?

MK: É. Aconteceu uma situação curiosa, eu fui tocar em São João del Rey, na terra do governador. A gente ficou com receio, mas fizemos a música. Quando estava no camarim, chegou um senhor mais velho, sério, e falou: “Eu não concordo com aquele texto”. A gente ali no berço, todo mundo ficou atento, nossa, e agora, o que vai acontecer? “Tudo bem, tem direito de discordar, mas por que você discorda?” “Porque o avô também era filha da puta”, era um inimigo político deles. Todo mundo riu.

PAS: É fato que no governo Aécio existiu um sufocamento, como também em São Paulo, em que ninguém pode se expressar na “grande” mídia fora dos domínios do PSDB?

MK: É, tem, é quase uma paranoia. Independente do governo, ele vai exercer o poder de autoridade. É a função do artista, da sociedade civil como um todo, se manifestar.

PAS: É uma questão importante, porque nos dois estados, Minas e São Paulo, o PSDB se coloca como o poder civilizado, que não reprime, não censura quem não está alinhado com as convicções deles. Mas é mentira, um coronelismo supostamente “civilzado”.

MK: É, isso é uma questão muito combatida. Por exemplo, a gente não tem uma força jornalística que se contraponha. São Paulo tem projeção nacional, se a Folha de S.Paulo coloca uma coisa todo mundo vem e bate. Se O Estado de Minas coloca uma coisa, ninguém bate.

PAS: Mas a Folha nunca coloca nada grave que seja contra o governo do próprio estado.

MK: É, esse posicionamento não é saudável. Existe esse tensionamento. A gente, por exemplo, como Fórum de Música de Minas, tem uma parceria com o governo do estado, o que não impede de artisticamente a gente se manifestar e ter um posicionamento político contrário. A gente está discutindo agora a formação do Conselho Estadual de Cultura, e ali a gente tem uma posição contrária à da secretaria, e isso é saudável. A gente está em todos os espaços, então não tem essa conversa de que a gente está fazendo crítica irresponsável. Eu faço a crítica na música, mas estou lá na audiência pública, na mesa, debatendo essa crítica.

27/08/2011 — , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Brasil, anos 2000, parte 2: do sonar ao aboio ao sonar ao aboio ao sonar ao…

Se na primeira parte deste trabalho partimos da música de Makely Ka e chegamos a política, façamos agora o caminho oposto. A trajetória que ele aponta, assim como sua ciranda “Roda da Fortuna”, é circular, pendular – da música à política, dessa de volta à música, à política, à música, à política.

(E, a propósito, “Roda da Fortuna” está disponível, ao lado de outras canções, para audição no aplicativo para celulares que Makely lançou – ali, ele vai costruindo o disco pouco a pouco, faixa por faixa, a começar pela capa, que existe antes do disco, mas pode mudar a qualquer momento.)

PAS: Já começamos a misturar os assuntos, e eu queria isso mesmo. Você é artista, mas ao mesmo tempo é presidente da Cooperativa da Música de Minas (Comum). Por que fazer as duas ao mesmo tempo?

MK: Esse movimento de organização é muito recente, não tem dez anos que a música começa a se organizar efetivamente em rede. A gestão do Gilberto Gil inaugura o Ministério da Cultura (MinC), inaugura a interlocução e de certa forma imanta o Brasil, aquela coisa do ímã que todas as setas apontam pra aquela direção. Acho muito salutar a definição do Gil, no programa dele, o discurso dos pontos massageados, do do-in antropológico…

PAS: Na época muita gente zombou…

MK: Sim, e é revolucionário. Um dos principais responsáveis por aquele texto é o Antônio Risério, um antropólogo que acompanho há muito tempo e que, não por acaso, é também um dos ideólogos do tropicalismo. Por isso considero a gestão do Gil uma continuidade do tropicalismo. Ali é o braço político que faltou ao movimento naquele momento. A política sempre esteve dentro do conteúdo programático do tropicalismo, mas eles não tinham experiência, nem acesso e nem saco naquele momento pra desenvolver. Pra mim é lógico, e é uma continuidade natural o Gil ter entrado. O programa do Gil não era do PT, eu estudei os programas de todos os presidenciáveis. Não tinha nada parecido com aquilo, acho que nem o próprio Gil tinha muita dimensão do que ele ia fazer. Mas ele reuniu algumas pessoas, como Risério, Jorge Mautner, Waly Salomão, Rogério Duarte, pessoas fundamentais na gestação do tropcalismo pra o ministério. E chamou a juventude, a galera da cultura digital, pra entrar, pra cair pra dentro.

PAS: Não deve ser fácil ser do clã Buarque de Hollanda e ter que assumir essa sucessão…

MK: Não, não. A Ana, se tivesse assumido esse ministério em 2003, não ia ter problema nenhum, ia ser louvada inclusive. É porque o Gil colocou a coisa num patamar muito alto. Ele vem com conceitos muito avançados, e dentro de um processo que já começou 40 anos atrás. Eu me senti muito instigado quando ele assumiu. Sempre tive esse interesse, mas nunca tinha me envolvido muito em grêmio, em política estudantil, nunca me filiei a nenhum partido. Chegamos a puxar greves, mas sempre individualmente. Mas quando quando eles fizeram o chamamento pra gente ir participar das Câmaras Setoriais do MinC, eu fui. Foi em 2005. Foi o primeiro momento que a gente se encontrou em Brasília, 17 estados, pra discutir políticas públicas.

PAS: E você era um cara que fazia música em Minas e foi porque quis?

MK: Fui porque a gente fez uma reunião com alguns músicos, e eu e o Weber Lopes fomos indicados pra ir representar o Fórum. A gente já estava acompanhando as discussões, no Rio e em São Paulo tinham começado um ano antes. O MinC passou em todos os estados convocando a organização dos músicos, e eu fui pra Brasília e conheci um universo que… Encontrei gente do Pará, do Rio Grande do Norte, do Rio Grande do Sul. Os nossos problemas eram muito parecidos, e a gente não se conhecia. E a gente fazia basicamente a mesma coisa. É ali que surge a ideia de autoprodutor. A gente cria, produz, divulga, às vezes a gente mesmo compra a nossa própria música, então a gente tem que se juntar. Isso começou a gerar os fóruns, as cooperativas, as associações, que foram surgindo ali naquele momento. E foram surgindo outras ações paralelas, que foram engrossando o caldo. O Fora do Eixo é uma ação que a gente acompanhou desde o início, eu levei o Pablo Capilé pra BH em 2006 ou 2007, mas já tinha feito uma entrevista com ele por messenger pra uma revista que a gente publica, a Revista de Autofagia, um ou dois anos antes, quando o Pena Schmidt e o Edson Natale me falaram de uma ação em Cuiabá que tinha impressionado muito eles.

PAS: Você acha que o movimento deles, assim como o de vocês, é filhote do MinC de Gilberto Gil?

MK: Sem dúvida, começa nesse processo, ou pelo menos coincide. Mas não é uma coincidência gratuita. Nunca a gente tinha imaginado uma construção coletiva de um Plano Nacional da Cultura, pensar os próximos dez anos de investimentos pra área. Eu gosto de fazer isto em tempo de eleição: pego um táxi, o taxista tem opinião sobre todas as áreas e todas as propostas dos governos, pra saúde, educação, saneamento. De cultura, ninguém tem opinião nenhuma. Porque a indústria acostumou a gente a entender a cultura como um investimento privado. Tem artistas, inclusive, que acham ainda hoje absurdo ter investimento em cultura com dinheiro público.

PAS: Jornalistas denunciam como se fosse crime.

MK: Eu falo: se fosse construir um hospital você seria contra? Se fosse pra fazer um tratamento de esgoto seria contra? Não. Por que se for construir um teatro é contra? Por que investir numa ação na área de cultura é errado, se isso é um direito constitucional, e se é dever do estado cuidar disso?

PAS: É como plano de saúde que não quer cobrir atendimento psicológico, como se fosse frufru.

MK: Exatamente, tanto que isso se reflete nas secretarias de cultura da grande e esmagadora maioria de prefeituras no país inteiro, não só nos interiores, nas capitais também. É um cargo de perfumaria.

PAS: Em São Paulo, temos agora Andrea Matarazzo, que é secretário estadual de Cultura, mas não se sabe de uma grande ligação dele com a área.

MK: Fazem política de eventos, que não é política de cultura – quando não é política de balcão mesmo. Se for de eventos, menos mal, porque tem um calendário, mas não é uma política efetiva. Antes do Gil, a gente tinha uma política de balcão, totalmente entranhada. A recusa da Ancinav (agência reguladora proposta no início do primeiro governo Lula e amplamente rejeitada como “dirigista” e “stalinista”) reflete isso, o discurso do manifesto do Luiz Carlos Barreto era exatamente este: vai pulvrizar nosso dinheiro. Meu amigo, vai pulverizar, sim, vocês não estão sozinhos, o Rio de Janeiro não está sozinho. O resto país quer fazer, está fazendo, e tem o direito de acessar esses recursos

PAS: Quando e como surge a Cooperativa da Música de Minas?

MK: Foi fundada em 2007. Vejo como um desdobramento lá do Reciclo, quando a gente se juntou, fez uma ação cooperativa sem saber que estava fazendo. A cooperativa não tem nenhum tipo de restrição, mas, por contiguidade, o tipo de gente que vai entrando tem esse perfil nosso: trabalha ou quer viver profissionalmente da música, muitos já têm uma carreira, um disco, dois discos, têm uma perspectiva de ampliar e criar circuito. A cooperativa foi uma das principais fomentadoras do programa Música Minas, que é ação do Fórum da Música, a gente conseguiu mobilizar um edital de passagens pra mandar músicos pro mundo todo. Nesses dois anos de programa a gente já mandou mais de cem artistas pra todos os continentes. A cooperativa hoje tem 300 e poucos filiados.

PAS: Todos músicos?

MK: Não, músicos, jornalistas, designers, técnicos de som, roadies, todos da cadeia da música. Pra um jornalista ser filiado, por exemplo, ele tem que apresentar um clipping de que faz um trabalho de crítica na área de música. Seria quase um suicídio querer fazer só com músicos, não funciona. A maior parte dos que trabalham hoje efetivamente do que a gente chama de núcleo durável são produtores, jornalistas e pesquisadores. Hoje na diretoria somos só dois músicos. É difícil conciliar.

PAS: Eu queria chegar nisso. Você concilia as duas atividades, ambas intensamente. Muitos artistas dizem “não posso, preciso cuidar da minha arte”…

MK: Eu tento conciliar. Por exemplo, a gente ajudou a organizar o evento aqui, e eu não me furtei a apresentar meu show também, porque é o trabalho que eu faço. Fiz uma turnê pelo Nordeste em maio, e comprei uma passagem da Giro TAM, um programa da TAM que viabiliza você comprar uma passagem até o destino final e pingar em algumas cidades, pagando só um trecho. Com R$ 400, consegui comprar uma passagem pra Natal, e parei em Salvador, Maceió e Recife. E articulei shows nessas cidades. Fui sozinho e consegui músicos e participações em cada uma dessas cidades. A divulgação, a produção e a articulação foram feitas pelos fóruns e cooperativas, com apoio inclusive do Fora do Eixo na divulgação. Num edital que a cooperativa lança, não participo, já estou excluído. Mas, como figura de frente, eu sou a pessoa que estabelece os contatos. Não sou hipócrita, sou músico, vivo do meu trabalho. Fiz o lançamento de um aplicativo pequeno, que ainda está em processo de construção, mas a gente resolveu botar ele durante a turnê, que teve repercussão na mídia também por esse detalhe. Mas é difícil conciliar.

PAS: É um sacrifício?

MK: Eu tenho o maior prazer, porque eu não queria fazer outra coisa. Foi isso que eu escolhi. E a forma de viabilizar a minha carreira passa por aí. Se a gente não fizer ninguém vai fazer, saca? E eu sei que vou colher esses frutos também.

PAS: A impressão que dá é de uma estrutura bem organizada que se construiu com grande rapidez. Já estão fazendo um congresso de cooperativas.

MK: É muito rápido porque a gente já tinha um acúmulo de experiência do fazer. Isso tanto a gente quanto o pessoal do Fora do Eixo tinha muito claro: nós não queremos estar na grande indústria. Um termo que a gente costuma usar é contraindústria, no sentido até de recuperar aquele sentido da contracultura, de uma desobediência civil, um posicionamento aguerrido. Isso sempre esteve muito claro. A gente não esá construindo carreira independente pra ser trampolim, pra ser descoberto. Em Minas, a gente viu gerações se frustrando porque ficavam esperando Roberto Carlos bater na porta da casa e falar: “Você é genial, eu vou te gravar”. A gente sempre ficou muito de olho em dois modelos, Pernambuco e Bahia, porque são dois modelos fora do eixo, fora da grande indústria.

PAS: De modo concreto, como a sua experiência política repercute no seu ofício, que é fazer música?

MK: O meu disco anterior tinha uma pegada muito política, explícita. Inclusive, em algumas situações, teve uma resistência a isso, porque parecia panfletário. Acho ainda pertinentes as falas que coloquei ali, Subcomandante Marcos, Glauber Rocha, Hugo Chávez. Mas principalmente a do Chávez teve uma espécie de patrulhamento, tanto à direita, de me associar diretamente àquela esquerda comunista, quanto à esquerda, de achar desrespeitoso, porque é uma música que falo de rimar pau com boceta.

PAS: Como você definiria o trabalho que você mostrou ontem no show?

MK: O mote do disco tem um sentido político, mas está um pouco mais diluído. Está um pouco menos na frente. Tenho tentado separar um pouco as coisas. Não separar no sentido de negar, mas não quero que o palco seja um palanque pra defesa de uma política que vou defender lá no colegiado setorial da música. Mas a política está presente de uma forma até inconsciente.

PAS: Deixa eu dar um exemplo. Tem viola caipira, e ontem, na circunstância de faltar o som nela, você teve a chance de dizer que a viola é discriminada nas cidades grandes.

MK: Tenho vários amigos violeiros, hoje a viola reverteu isso. Tem o movimento dos violeiros, acho às vezes até meio chato que a viola tem que ser do mato. É um instrumento, e você usa ele, e ele pode estar dentro de uma banda de rock pesado. Mas tem esses pequenos preconceitos, como teve com a guitarra. São casos inversos, mas complementares.

PAS: A princípio, a guitarra tinha ganhado, mas agora não dá pra ter tanta certeza assim.

MK: É, eu tenho uma crítica àquela viola de raiz, já pensei em fazer um disco só com sons de viola urbana, imitando uma impressora a jato de tinta (risos), só tirando uma onda dos violeiros. É um instrumento versátil, que se presta a muitas coisas.

PAS: Noutro momento você diz: “Vou fazer uma ciranda agora, na verdade nem sei se é uma ciranda”. São elementos de identidade que está usando de modo livre, não pra reproduzir o que na verdade você não é.

MK: Nesse disco eu trabalho com muitos motes e ritmos que absorvi, mas nunca fiz uma oficina de ciranda pra saber, nunca fui estudar ijexá. Me sinto à vontade pra me apropriar disso da forma como eu entendo.

PAS: Mas você está interessado em fazer isso, podia estar interessado no grunge.

MK: A música “Santeria” eu fiz imaginando que estava fazendo uma rumba, um ritmo caribenho. Aí mostrei pro Guinga, e ele falou: “Isso não é uma rumba, é um galope sergipano” (ri). No final das contas, a gente já tem essas matrizes todas aqui, e essa bobagem de dizer que isto é de fora e isto não é de fora… Na verdade, tudo é de fora, toda a cultura armorial do Ariano Suassuna veio de fora, foi importada.. Ao mesmo tempo, isso não deixa de ser nossa. Essa apropriação me interessa muito, e não tenho o menor constrangimento de pegar uma métrica como o martelo e botar dentro de uma melodia que não é característica dessa métrica. Ou usar uma melodia de aboio e botar uma letra que não tenha nada a ver com aquele universo. Tenho uma referência muito forte com relação a isso, que é o Bráulio Tavares (autor de sucessos de Elba Ramalho e Lenine). Ele faz essa transposição muito bem, entre a cultura popular, o pop, o erudito.

PAS: Pergunto à queima-roupa: existe uma escola João Bosco de música brasileira? Vi o fantasma dele lá no show…

MK: (Ri) É uma referência forte, na coisa de não ter uma formação acadêmica. Gosto muito da percussão do violão do João Bosco. Os dois violonistas que não são necessariamente violonistas, mas que mais me influenciaram foram João Bosco e Gilberto Gil. Aquela fase do Gil de Expresso 2222, aquele violão ponteado, e no João Bosco a percussão, o loop e o ostinato que ele usa no violão são referências muito fortes. E claro que é filtrado pela minha deficiência como músico, mas também pela influência da escola mineira. Meus parceiros todos têm essa coisa da harmonia, a referência do clube da esquina, do Guinga, do Tom Jobim: Chico Saraiva, Kristoff Silva, Mário Seve.

PAS: Gilberto Gil é o tropicalismo, Milton Nascimento é o clube da esquina, mas o que João Bosco fez não teve um nome. E é tão característio, e particular – e mineiro, afro.

MK: Minas é o segundo estado com maior população afrodescendente do país. E os africanos que vieram pra cá, ao contrário da Bahia, que recebeu muito iorubá, foram africanos bantos, que são muito diferentes, é outra conversa, outra relação com a música, outra língua, os gestos, a expressão. Isso tem uma influência muito forte no interior, o João é de Ponte Nova e estudou em Ouro Preto, como eu também estudei. A relação da população negra da cidade é muito forte, porque os negros de Ouro Preto vivem na periferia, nos morros, e frequentam o centro histórico como trabalhadores. E essa relação é tensa, muito forte, o João traz muito isso. Ele e o Aldir Blanc, que é uma referência muito grande também.

PAS: Eu ia falar isso, não está certo falar escola Bosco, devia ser Bosco-Blanc. Sua poesia não tem a ver com a do Aldir Blanc, mas em alguns momentos também remete, de algum modo.

MK: Pra mim, se for pensar em alguns letristas de referência, numa linha temporal, é Noel Rosa, Vinicius de Moraes, Chico Buarque, Caetano Veloso, Torquato Neto, Aldir Blanc, Paulo César Pinheiro, Bráulio Tavares, Arnaldo Antunes. Paulo Leminski também foi importante pra mim, de fazer esse gancho, como Alice Ruiz ele hoje estaria muito mais ligado à música que à poesia.

PAS: Aldir tem uma temática com “os bóias-frias”, uma proximidade verdadeira do que seria uma poesia popular. Quando você se aproxima do rap, por exemplo, ou dos catadores de papel, está tentando algo parecido? É pra ser popular ou não é? Noutro momento você brinca com um refrão: “Vou fazer um refrão fácil e vocês cantam comigo”, e canta um refrão superdifícil, que não decorei até agora (risos). Qual é essa provocação?

MK: É uma brincadeira, isso de tirar uma onda do público é um pouco do Tom Zé. A gente faz uma música que não é necessariamente pra dançar, pra embalar romances. É uma música pra pensar, não que seja intelectual no sentido mais puro do termo. Mas é pra despertar alguma reflexão, é como eu ouço música. Olha que sacada legal, de alguma forma a gente está pensando através da música, né? E esses comentários são uma forma de tentar dar um clique, olha, peraí, ele está falando comigo?

PAS: Por outro lado, chegou o baixista, você chamou dois parceiros nordestinos, de repente eram seis caras no palco cantando uma melodia linda, que dava pra cantar junto, falando que “esta ciranda é pendular”, o que não é um linguajar habitual da música popular.

MK: O Aldir tem toda a erudição dele, ele insere nas músicas às vezes até de uma forma pedante, em muitas parcerias com o Guinga, fica citando frases em francês e inglês. Eu acho chat, mas mesmo assim às vezes ele cria termos que viram…

PAS: “Band-aid no calcanhar”.

MK: “Band-aid no calcanhar”, viram expressões. Isso pra mim é genial, a grande realização do compositor. O Aldir é extremamente feliz nessas soluções, “de frente pro crime”, essas expressões que ele consegue criar numa música extremamente sofisticada, até difícil do ponto de vista formal – é difícil tocar João Bosco. E ao mesmo tempo de uma ironia, “quem dá sardinha em plena beira do mar é coqueiro”, umas sinapses absurdas que levam um tempo, você percebe, mas não consegue entender racionalmente, entende quase intuitivamente no momento que ouve. Isso eu busco, todo mundo busca, conseguir fazer com que o público crie sinapses. Nessa ciranda uso uma melodia muito característica das cirandas, dou uma desvirtuada e faço uma associação e ideias que é muito comum na poesia. A ciranda é circular, ela lembra um sonar que bate e volta e um pêndulo. Ela tem o movimento das ondas, né? A ciranda tem os dois movimentos, porque ela gira, mas ao mesmo tempo o movimento dos braços lembra uma onda, vai e volta como um sonar, mas ao mesmo tempo é pendular.

PAS: A letra mais instigante, pra mim, é a que fala que o perigo é prazeroso. Como é mesmo?

MK: “Código Aberto”.

PAS: O título, por sinal, entra em vários territórios, de copyrights, copylefts…

MK: (Recita) “Sei que a vida é um código aberto/ mas eu sei que viver é perigoso/ nunca houve uma época segura/ o perigo também é prazeroso/ não se pode viver é na paúra”.

PAS: Essa mania que temos de reclamar, “ah, como a violência aumentou ultimamente”…

MK: Se você estudar um pouco de história, vai ver que a humanidade sempre foi cruel, sempre cortou cabeças. Aí eu cito o Guimarães Rosa, que viver é perigoso. Se você está vivo e se recolhe, está muito mais seguro, mas também abre mão de um monte de prazeres. É um círculo, o prazer é perigoso.

PAS: E o perigo é prazeroso.

MK: O perigo é prazeroso, injeta adrenalina. Estive duas vezes já no Acre, li que foi inaugurada a estrada transoceânica, terminaram a última ponte que liga o Brasil ao Oceano Pacífico. A matéria dizia que é uma viagem muito interessante, mas é perigosa. Aí dá muito mais vontade de fazer, imagine sair do Brasil, atravessar a floresta tropical, entrar nas cordilheiras, atravessar os Andes e chegar no Pacífico. Um sonho de gerações. E poder ainda desbravar uma estrada quase virgem, que ainda não foi desbravada. É instigante, muito mais que viajar pela Route 66. Essa música é um martelo, que é uma estrutura tradicional, e é um tema pouco usual para trabalhar num martelo, código aberto, que é uma metáfora pra própria vida. É um pouco o que o Bráulio faz muito bem, pegar a ficção científica e botar num cordel, e misturar esses códigos.

PAS: Zé Ramalho, antes, também fazia isso.

MK: É, ele é muito amigo do Zé Ramalho, são parceiros. É o que Zé Limeira já fazia também, o absurdo, a hipérbole, aquelas situações.

PAS: Sobre prazer perigoso e perigo prazeroso, fazer música e política ao mesmo tempo é perigoso? É arriscado?

MK: Tem muitos riscos, principalmente pra carreira musical. A política é um terreno muito pantanoso, e mais que isso, existe um estigma negativo. Semana passada estávamos em Brasília, na reunião da frente parlamentar da música, estavam o Frejat, Fernanda Abreu e Sérgio Ricardo. Foi um dos encontros mais curiosos que já tive, porque o Sérgio Ricardo é um cara marcado profundamente pela atitude política sem querer. Aquela atitude dele (de quebrar o violão no festival) em 1967 marcou o resto da vida dele, e não tinha como ele não ter uma atitude política. De alguma forma, ele está retomando esse engajamento com o manifesto G.R.I.T.A., e já gerou uma polêmica, porque ele é amigo do Chico, o Chico assinou, depois pediu pra sair, criou uma indisposição com o MinC. A Ana complicou a vida do Chico, né (risos)? Acho saudável botar o Chico na roda, ele fica numa situação muito confortável, de unanimidade.

PAS: Mas qual foi essa história?

MK: O Sérgio Ricardo lançou o manifesto, um pouco romântico, a gente até falou: “Olha, Sérgio, a gente já está fazendo um monte dessas coisas aí, vamos chegar junto, vamos tentar alinhar o discurso”, eu almocei com ele nesse dia. Ele leu o texto super romântico, no bom sentido até, com intenções nobres, mas falando de coisas que são de um outro tempo. É um cara que está aí, tem vários filmes fundamentais, A Noite do Espantalho, O Menino de Calça Branca, fez a trilha do filme do Glauber, é pintor. É uma referência de uma possibilidade.

PAS: …Que foi muito desqualificada ao longo das últimas décadas.

MK: Foi. O Chico assinou, porque é amigo do Sérgio, mas parece que teve uma chamada da irmã… Tiraram a assinatura dele, e isso deu mais visibilidade: por que o Chico tirou? O ministério está sendo questionado, está tendo crítica, não pode criticar? Se um Buarque de Hollanda critica…

PAS:É o mesmo que falávamos dos tucanos de Minas e de São Paulo.

MK: Exatamente. Mas acho saudável ter essa discussão, colocar na roda, e é muito legal ter vindo do Sérgio, que é um cara muito respeitado pelos pares dele, apesar de tudo.

PAS: Ele é? A imprensa não respeita, nem toma conhecimento.

MK: É, é aquele tipo de caso, como diz o Luís Nassif, de assassinato de reputação. Pete Townsend pode quebrar a guitarra, mas esse cara não, é considerado um vândalo até hoje. Pelo amor de Deus.

PAS: Eu perguntei sobre perigo e você associou com Sérgio Ricardo. Você pode ser estigmatizado por fazer política num lugar que supostamente não era pra fazer?

MK: E do outro lado as pessoas acharem que você está se beneficiando dos canais, que deve estar recebendo dinheiro do ministério. Você acaba sendo muito mais policiado, e acaba tendo que ter uma posição muito mais reta. Tem que se resguardar mais, o processo é muito mais melindroso.

PAS: Por que o primeiro encontro das cooperativas musicais está acontecendo no Acre?

MK: Estive aqui no final do ano passado pra falar sobre o fórum e as cooperativas, e eles tinham uma estrutura toda já montada, a secretaria com a fundação, o Sebrae, o governo do estado, a prefeitura. Pra eles o que faltava era uma entidade da música organizada, tinha essa lacuna no organograma. Falei: “Mas a situação é muito mais favorável, em quase todos os outros estados não existe um alinhamento como vocês têm aqui. Vocês estão com tudo na mão”. Um mês depois eles criaram e foram pra Belo Horizonte já como cooperativa. Viemos em maio discutir, quando chegamos na reunião estavam o gabinete do senador Jorge Viana, do governador, o secretário de cultura, o presidente da fundação, o secretário de pequenos negócios, o presidente do Sebrae. Eu não consigo, nem pra cultura, muito menos pra música, menos ainda pra cooperativa da música uma pauta com o governo de Minas com uma antecedência mínima de seis meses. A gente não tem esses acessos. Aqui eles têm um governo com uma ação exemplar no âmbito social e cultural, dizem que o PT aqui é o PT que deu certo.

PAS: E foi aqui que o PT e Dilma tomaram surra na eleição passada, não foi?

PAS: Eles quase perderam. É sintomático. E ao mesmo tempo o senador Jorge Viana, que foi governador, tem prêmios internacionais, é reconhecido. Independente disso, a gente achou simbólico trazer uma ação dessa pra cá. Imagina, o Acre tem muita gente que duvida até que existe.

PAS: Uma piada de mau gosto.

MK: De mau gosto, pejorativa. A gente trazer pra cá e mostrar como o Acre está preparado… A gente apoiou imediatamente, porque pra gente é um modelo, mostra que não precisa muita coisa, é vontade política. E é uma forma de chamar atenção pra essa articulação que está surgindo hoje na região Norte, que por muito tempo ficou à parte. Aponta pra nossa vontade de integrar realmente o Brasil inteiro, o que as gravadoras nunca fizeram.

PAS: E é a terra do João Donato.

MK: Terra do João Donato!, eles inclusive gravaram um DVD em homenagem a ele aqui, quando eu estive da outra vez ele estava aí gravando.

27/08/2011 — , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , , ,

Cooperação Criativa

O movimento cooperativista musical é uma filosofia que surgiu da prática e reflexão a partir do ativismo dos autoprodutores no sistema contra-industrial.

As cooperativas de música dilatam o conceito de cooperativismo não só no campo da sustentabilidade e dos novos modelos de negócio, mas também, e principalmente, nas esferas da economia criativa, da comunicação em rede e da representatividade coletiva. Mais do que isso, deslocam o foco da produção para a criação, mudando o perfil clássico do cooperativismo baseado nas cooperativas de trabalho para as cooperativas de criação, estendendo os princípios do cooperativismo para um sentindo amplo de cultura.

Isso porque células criativas da música se apropriaram dos ideais do cooperativismo e o adequaram às suas necessidades e desejos, assim como às novas demandas, vislumbres e possibilidades da tecnologia.

A música é um dos setores da indústria que mais sofreu o impacto das novas tecnologias e seus criadores foram dos primeiros a apresentar alternativas viáveis para a conversão do aparato tecnológico em ferramenta ativa na revolução de costumes, usos e hábitos pelos quais passamos. Vírus transformador ao invés de panacéia futurista, a apropriação das tecnologias inovadoras assumiu um caráter subversivo capaz de desestabilizar conceitos enraizados no modo de produção, consumo e fruição de cultura herdados da revolução industrial, do fordismo, do copyright e do próprio conceito iluminista de criação. Diante de um monolito de dúvidas a única certeza possível é a experimentação, a busca de alternativas inusitadas, emboram muitas vezes simples e rarefeitas como nuvens.

Nesse contexto de transformações estruturais é natural a renovação conceitual. Contra industria surge como um meme pós-industrial num momento de esgarçamento de conceitos como independente, indie, alternativo, marginal.

O autoprodutor é o não-especialista por definição. Ele compõe, produz, divulga, distribui e consome, não necessariamente nessa ordem. A necessidade premente em desatar tantos nós quanto possíveis da ‘cadeia’ fizeram dele um profissional genérico que levou às últimas conseqüências a máxima anarquista “faça-você-mesmo”! O autoprodutor portanto é o operário da contra-indústria que encontrou no cooperativismo a força coletiva para instaurar uma nova realidade. A negatividade implícita no termo significa menos a transformação vertiginosa dos aspectos técnico-formais do que a recusa do modelo consolidado de divisão do trabalho e atribuição de tarefas no sistema de produção em escala industrial. Essa é a principal mudança paradigmática que trás a reboque todas as outras.

O cooperativismo encontra nessa contra-indústria um novo modelo de divisão de trabalho sem no entanto abrir mão dos avanços tecnológicos e das conquistas e soluções encontradas pela própria indústria. Essa nova divisão do trabalho se estrutura em redes colaborativas onde a gestão das atividades é individual, orgânica e ao mesmo tempo coletiva. Contra-indústria é, no plano sintático, um oxímoro, e essa contradição perdura até o momento em que se percebe que ela se constitui como uma síntese dialética da revolução industrial. A idéia de redes e de rizoma aqui torna-se fundamental para compreender a forma como se dá o processo de produção contra-industrial.

Nada como uma crise para alimentar a imaginação, aproximar opostos em busca de saídas comuns e alimentar a colônia para que seja possível proliferar o germe da solidariedade. Um dos germes são os Bancos de Serviços, com código genético herdado dos Bancos de Horas e utilizando a unidade hora/aula – princípio pedagógico-social – fomentando a troca de serviços, saberes e experiências e buscando a auto-sustentabilidade para as atividades promovidas pelos cooperados.

Além de viabilizar uma forma inovadora e pioneira de gestão coletiva das carreiras baseada na economia solidária e no comércio justo e auto-sustentável, as cooperativas de música ocupam uma lacuna gigantesca na organização e representação política do setor musical, utilizando elementos da democracia experimental, do cyberativismo e da comunicação em redes para mobilizar o setor e estabelecer interlocução com governos e instituições.

Subvertendo o pragmatismo mercantilista que reduziu empresas jurídicas a emissores de nota fiscal, alimentando um mercado paralelo na sombra da legalidade, as cooperativas de música elevam também a outro patamar a discussão acerca de questões trabalhistas e previdenciárias, no âmbito da regulamentação profissional e dos encargos tributários  bem como as questões educacionais, valorizando a troca de informação desierarquizada e o reconhecimento de saberes intuitivos.

O grande desafio das cooperativas de música agora é integrar todos os estados numa rede rizomática capaz de dar vazão a essa produção latente, criando circuitos para o fluxo de artistas, pesquisadores, técnicos, pensadores, jornalistas e produtos. Essa plataforma aponta para a consolidação de uma grande malha formada por todas as cooperativas de cultura, dando outra dimensão para o cooperativismo e inaugurando um novo momento no modo de fazer e consumir cultura no país.

Makely Ka é compositor e presidente da COMUM

Bota Fora da Ordem

A decisão unânime dos ministros do STF pela não obrigatoriedade de filiação à Ordem dos Músicos do Brasil reacende um dos principais debates do setor musical nos últimos anos, que gira em torno da regulamentação da profissão de músico. A lei  3857/60 sancionada no governo JK regulamentou a profissão e criou a OMB, uma autarquia federal como a OAB. Mas essa lei de 1960 não foi “recepcionada” pela Constituição Federal de 1988. A liberdade para o exercício da profissão é garantia constitucional prevista no art. 5°, XIII. Esse artigo foi usado como argumento para centenas de liminares judiciais garantindo o direito de livre manifestação artística dos músicos, ou seja, a não-obrigatoriedade de filiação. Eu mesmo, que atuo profissionalmente há mais de dez anos, fui dos primeiros a conseguir uma liminar, ainda em 2003, e por isso nunca precisei me filiar.

Para entender um pouco o contexto é importante lembrar que logo após ser criada os militares, que assumiram o poder em 1964, impuseram um déspota na presidência da OMB, o Sr. Wilson Sândoli, que consquistou o cargo graças à delação do seu antecessor por comunismo. O delator permaneceu no cargo por intermináveis 42 anos, usando manobras e artifícios pouco republicanos, até 2006, quando foi obrigado pela justiça a deixar o cargo, pois acumulava também o Conselho Regional da mesma entidade. Que a OMB precisa acabar não há a menor dúvida, é um órgão anacrônico, obsoleto. Entre tantas irregularidades que nos recordam tão freqüentemente os anos de chumbo, como manipulação das eleições, uso de poder de polícia, apreensão de instrumentos, há por exemplo o caso escandaloso da auditoria realizada em São Paulo que identificou a compra de carros blindados e armamento pesado.  Então, para mim e para a maioria dos músicos do país, a decisão do STF que abre na prática o precedente para a extinção da OMB está sendo comemorado como vitória. O que não significa que basta acabar. Em primeiro lugar queremos que seja realizada uma auditoria fiscal nas contas da entidade e sejam responsabilizados e punidos os dirigentes pelos abusos e desvios nesses anos todos.

Mas há também pelo menos duas outras questões que gostaria de destacar. Uma é a a regulamentação da profissão de músico, o que distingue um profissional, com seus direitos trabalhistas.  Qualquer um pode fazer música, mas nem todos são músicos profissionais. A questão dos jornalistas, citada por alguns dos ministros do STF, é o exemplo mais próximo. Qualquer um pode escrever uma reportagem, mas só tem direitos trabalhistas (definidos em convenções coletivas de trabalho como vale-refeição, adicional de periculosidade e insalubridade e percentual de adicional noturno) os jornalistas registrados. Esse registro poderia ser através dos sindicatos e a operacionalização do trabalho através das cooperativas por exemplo. É importante ainda deixar claro que, apesar da regulamentação da profissão e da OMB terem sido criadas pela mesma lei, são coisas diferentes, uma não está necessariamente colada à outra. Acho importante também na regulamentação da profissão estarem contempladas questões relativas à previdência, como a reivindicação de aposentadoria espacial com 25 anos.

Além dessa questão trabalhista outra que me parece muito delicada é o patrimônio acumulado nesses anos todos pela OMB. A OMB possui cerca de 50 mil inscritos em todo o país, com sede própria em todos os estados e no Distrito Federal. Além da capilaridade a OMB acumulou nesses cinqüenta anos um patrimônio considerável às custas do suor de milhares de músicos. Ignorar esse cadastro e entregar para a União esses imóveis seria injusto com aqueles que contribuíram pagando as taxas esses anos todos.

Por isso tudo venho defendendo a criação do Instituto da Música. É um estudo ainda preliminar, mas analisando a figura de fundações e institutos, estou inclinado a pensar que a criação de um Instituto da Música seja o mais adequado para dar conta das demandas do nosso setor nesse momento. Num primeiro momento a criação desse orgão teria a função de absorver o espólio e promover o fomento e apoio aos músicos que a OMB nunca conseguiu. Seria uma espécie de braço executor das políticas públicas para a área, atuando no sentido de cumprir as diretrizes e metas do Plano Setorial da Música, construído democraticamente ao longo dos últimos oito anos.

O Instituto poderia inclusive atuar também como órgão fiscalizador do ECAD, concentrando algumas das principais funções demandadas hoje pela classe. No âmbito do Ministério da Cultura a FUNARTE é a vinculada responsável pelas artes. Mas se nem a literatura, o folclore e o cinema estão mais na FUNARTE, porque logo a música, o setor mais complexo e estratégico do setor artístico, permanece ali na salinha do CEMUS – Centro de Música da FUNARTE? Lembro que o IBRAM (Instituto Brasileiro de Museus) foi criado recentemente dentro de um contexto semelhante, guardadas as devidas proporções e diferenças entre o setor musical e os museus. Mas enfim, é ainda só um apontamento que precisa de mais fundamentação para ser apresentado como opção válida. Quero apenas deixar aqui a sugestão como reflexão.

Mídias autônomas ou era pós midiática?

Texto do filósofo e ensaísta Peter Pál Pelbart sobre a experiência coletiva que tivemos no Circo Voador alguns anos atrás. Acho muito oportuno recuperar essa reflexão no momento em que algumas daquelas possibilidades vislumbradas ali, que pareciam ainda utópicas e visionárias, começam a tomar corpo!

Pode o “artista independente”  evitar tornar-se apenas momento precário e oportunista em sua carreira?

Por Peter Pál Pelbart

Quando fui convidado a esse encontro sobre sustentabilidade da mídia independente, de início tive dificuldade em compreender as razões desse gentil convite, tendo em vista minha incipiente familiaridade com o tema em questão. É verdade que já havia sido convidado como palestrante em eventos similares, seja um encontro sobre mídia tática organizado pelo saudoso Ricardo Rosas, seja um fórum sobre ativismo cultural promovido pelos coletivos de São Paulo, seja, enfim, meu interesse pelas iniciativas do gênero com as quais tenho um diálogo descontínuo porém fecundo. Nesse caso, porém, dado o lugar mais discreto, de mediador, que me foi reservado, e mobilizado sobretudo pelo interesse em me informar sobre os rumos desse meio entre nós atualmente, aceitei a incumbência razoável de coordenar um grupo  chamado de Intersecções. Segundo os organizadores do evento Onda Cidadã, esse grupo híbrido (pois teria gente proveniente de mídias as mais diversas) reunia os participantes mais “malucos” da empreitada, e dada minha experiência com loucos (a Cia Teatral Ueinzz, que coordeno há dez anos), eu certamente saberia lidar com eles. Ao começarmos os trabalhos sob a simpática tenda do Circo Voador, com vista para os arcos da Lapa e um céu especialmente límpido, ainda constrangido pela natureza insólita de minha tarefa, pedi inicialmente que cada qual apresentasse sua experiência. Confesso que logo de cara, no meu constrangimento, tive dificuldade em compreender até parte do vocabulário utilizado por alguns membros muito jovens, referindo-se por vezes à cena musical predominante, às correntes em voga, a siglas do MinC, mecanismos de captação, ou mesmo a nomes de banda e festivais multitudinários sediados em lugares longínquos (para mim) de cuja existência eu jamais havia ouvido falar. Uma vez passado o estranhamento inicial, com o linguajar, com o estilo, com as siglas, com algo, enfim, que eu atribuía (para facilitar minha posição) à distância geracional, fui percebendo, para retomar a expressão dos organizadores, que se eu estava diante de “malucos”, eram os malucos mais articulados que conheci na vida. Tudo ali parecia a mim novidade: a lógica de produção, de associação, de enunciação, de mobilização. Saía desses encontros com a sensação de ter sido levado por um tufão. Eu me dizia o tempo todo: serei incapaz de resumir o que ouvi, se mal entendo do que estão falando. Poucas vezes vi gente que tem a mão na massa e tamanha lucidez sobre nossa economia cultural, bem como sobre as mutações que ela implica, tanto nos processos de formação, de produção, de difusão e de consumo dos bens culturais. De fato, os meios de expressão ali apresentados eram os mais diversos, desde o saquinho de pão impresso, distribuído nas padarias de Vitória pelo Projeto Forninho e funcionando como um jornalzinho regional com impacto popular, até os saraus promovidos pela Cooperifa nos bares de Capão Redondo, na periferia de São Paulo (sendo o bar o verdadeiro “espaço público” das favelas), onde uma propagação imensa da poesia oral entrou em disputa até mesmo com o próprio tráfico, chamando a atenção dos jovens da comunidade (como dizia Genet, só a arte é mais excitante que o crime), e a idéia magnífica de uma Semana de Arte Moderna da favela, com direito a um Manifesto Antropofágico da Periferia. Para não falar das corajosas intervenções públicas e midiáticas do coletivo Bijari em áreas “gentrificadas” de São Paulo, contrapondo-se à limpeza étnica urbana em curso, ou sua associação com o movimento dos sem-teto das cidades numa imensa ocupação no centro de São Paulo, ou no T-bone Açougue Cultural  e suas atividades em Brasília (fundado por Amorim Lima, que chegou a ter dez mil livros em seu açougue para empréstimo gratuito à população), passando pela Eletrocooperativa e seu ativismo musical e poético na Bahia e em São Paulo, no campo da educação e da juventude, ou mesmo o grupo do Circo Voador, que de modo tão hospitaleiro abrigou o encontro, com a irradiação cultural que promove na cidade do Rio de Janeiro. Em todos esses casos, pode-se dizer que foram criados novos modos de cooperação e de associação e de afetação e de intervenção urbana. Das experiências relatadas no grupo Intersecções, talvez a mais surpreendente, em termos de reconfiguração do circuito de fluxos e trocas culturais, é o cubocard, moeda criada por iniciativa do Espaço Cubo, em Cuiabá. Embora seja difícil imaginar uma economia de escambo em nosso milênio cibernético, o seu inventor explicou seu surgimento com grande desenvoltura e naturalidade, descrevendo o circuito produtivo e expansivo que ali se constituiu, à revelia da grande mídia e da economia vigente. Uma cadeia de valoração autônoma, onde músicos, artistas, técnicos, trocam serviços e sustentam uma produção intensa e independente, praticamente sem depender de financiamentos externos ou patrocínios eventuais ou reconhecimento midiático. Tão forte se tornou esse mecanismo, e a tal ponto mudou o panorama cultural da cidade, que o poder público não pôde deixar de se interessar, percebendo que a produção vital dava-se justamente nessa zona de autonomia temporária. Assim, foi a reboque, inserindo-se no circuito, injetando recursos, mas também fazendo uso dos cubocards obtidos em troca para solicitar a presença das bandas em seus eventos. Do mesmo modo a iniciativa privada se inseriu, entendendo que a economia cultural aí emergente, e o público que ali circulava, reconfigurava a dinâmica local. De modo que esse circuito começou a ditar uma nova sensibilidade musical, uma nova sociabilidade associativa, um novo empreendedorismo biopolítico. Essa solução já se estende para outras cidades do país, e não há razão para que não seja transposta a nível nacional, como o propôs Pablo Capilé. Se acompanhamos a proposta de seu amigo, o poeta Makely Ka, juntamente com o espaço criado por ele em Belo Horizonte a partir de uma atividade associada aos catadores de papel, o desafio consiste hoje em criar uma “contra-indústria”, uma guerrilha cultural, circuitos paralelos, novas cadeias de valor, com o que, necessariamente, se desatam os nós da cadeia produtiva hegemônica, validando a autoprodução em todas as suas etapas. É a reatualização da consigna punk do “faça você mesmo”.

Como, no entanto, não deixar que essa autonomia do chamado “artista independente” se torne apenas um momento precário e oportunista em sua carreira, à espera do convite global vindo de longe? Pois é inevitável, e essa posição parece compartilhada pelo grupo inteiro: com tais iniciativas, desloca-se inteiramente o lugar do artista. O artista hoje já não pode deixar-se levar pelo mito romântico do ser solitário, à espera da inspiração divina – ao contrário, ele é uma espécie de operário, de carregador de caixas, de produtor com a mão na massa e inserido na mobilização coletiva. Também não cabe a ele desprezar a cena local, fixado no grande eixo cultural – cada ponto da rede é um foco de irradiação cultural soberano. Assim, muda a relação centro/periferia, a dependência em relação às instituições reconhecidas, bem como os clichês sobre inclusão social, precariedade, reivindicação, conflito. A meu ver, essa inteligência coletiva em ação, sem ingenuidade alguma, tem a clara consciência  de que o capital imaterial de que todos dispõem – isto é, a força de invenção ou força-invenção, que é patrimônio de todos e de qualquer um seja lá onde estiver, conforme o escreve Maurizio Lazzarato a partir de Gabriel Tarde, tem meios de negociar e de driblar os mecanismos de captura vários, provenientes do poder público, da iniciativa privada, bem como da máquina midiática. Ou seja, está a seu alcance a potência de reinventar a subjetividade coletiva, os meios de produção, de troca e de consumo, a própria mídia. Tenho a impressão que esse grupo vive na carne a constatação de que o capital maior é a própria vida, e que sua potência de expansão e de constituição extrapola o poder do capital e o sequestro da vitalidade social dali advinda. É uma pequena revolução biopolítica.

Quando o jovem criador do Cubo insistiu em que todos aqueles grupos se mobilizassem para estarem presentes no encontro dos pontos de cultura do Brasil em BH, a ser realizado em novembro por iniciativa do MinC, e que aproveitassem esse encontro como uma oportunidade a mais em vista desse projeto maior, e que não deixasse esse encontro esgotar-se nele mesmo, quando ele mencionou que era preciso aproveitar essa janela de ocasiões ainda aberta pela presença de Gilberto Gil, e quando o poeta mineiro insistiu que havia ao todo, espalhados pelo país, pelo menos 20 mil focos de guerrilha cultural, o que constituía um poder de fogo nada desprezível que era preciso fazer somar, e quando se propôs que saísse um ônibus do Capão Redondo, em plena “Semana de Arte Moderna” em direção ao encontro dos pontos de cultura em BH, tive a impressão de que se tudo aquilo, por um lado, ressoava inteiramente com o que eu andava trabalhando nos últimos anos em termos teóricos (com Negri, Hardt, Lazaratto, Levy, Deleuze-Guattari), ao mesmo tempo minha lentidão e reclusão acadêmica e enclausuramento no que eles chamavam de Eixo (não é o Eixo do Mal, mas o Eixo Rio-São Paulo, diante do qual eles criaram em Cuiabá o espaço cultural Fora do Eixo), me deixava a reboque dessa vitalidade estonteante. Os meninos (que eles perdoem essa designação carinhosa, embora alguns tenham mais do que a minha idade) têm plena consciência de que nas ultimas décadas houve uma pequena revolução que não é apenas tecnológica, e que colocou ao alcance de praticamente todos, por mais desvalidos e precários ou supostamente excluídos que possam ainda ser considerados ou se considerarem, a possibilidade de se munir dos meios técnicos e associativos, e de criar agenciamentos coletivos que os sustentem, numa guerrilha generalizada, guerrilha semiótica, afetiva, vital, econômica, num contexto em que o controle molar e o molecular se ajustam numa semiótica a-significante, e que portanto, é preciso revidar no mesmo plano sem descuidar do resto, e no limite, reinventar a própria moeda. Ou seja, um comum virtualmente presente é acionado e mobilizado e desdobrado, a partir do qual o jogo parece revirado. A clareza sobre o capital biopolítico, sobre a inteligência coletiva, sobre a potência performática e a propagação a-significante, a igual clareza com a qual avaliam as relações eventuais porém não imprescindíveis com o poder público e a iniciativa privada e as instituições ditas culturais, a astúcia com que usam os apoios e os driblam contra o contexto que os tende a capturar, jogando merda no ventilador o tempo todo (financiados por uma empresa de telefonia, fazem uma música que começa assim: desliguem seus celulares..), num misto de legalidade e ilegalidade que lembra a estratégia dos intermitentes do espetáculo com quem Lazzarato tem trabalhado na França (que ao empreenderem com grande engenho lúdico uma greve nacional de artistas, que esvaziou inteiramente a indústria do turismo no sul da França, obrigaram o governo a negociar a manutenção de um sustento para os períodos de entre-safra), enfim, a lucidez sobre o compartilhamento e também uma espécie de inconsciência mobilizada, que detecta os impasses e reinventa as saídas prováveis porém não necessárias, a antenagem ímpar para o bombardeio semiótico e os revides possíveis, testemunham no mais alto grau que os instrumentos de percepção e de desmontagem ao nosso alcance são por vezes de extrema pobreza quando comparados com tamanha inventividade micropolítica. Fiquei tão impressionado com tudo o que ouvia que depois de cada sessão precisava caminhar sozinho até o hotel e dormir uma boa hora, para retomar a sessão seguinte com a energia renovada. Não sabia como conseguiria escrever, o que quer que fosse, à altura da experiência relatada – e o grupo até cogitou de escrever um pequeno documento-manifesto, mas entendeu que a prioridade no momento era a mobilização mais geral dos outros grupos presentes, para um encontro futuro. Na ocasião, também eu estava às voltas com um texto a ser escrito para um Simpósio Nietzsche-Deleuze, em Fortaleza, cujo tema era “”vontade de potência” e “máquina de guerra”. Entendi subitamente que ali tinha um pequeno exemplo, porém talvez apenas um recorte minúsculo de uma fermentação generalizada, de um enxameamento onde o que poderíamos chamar de novos valores, ou novos modos de valoração (inclusive econômica), para usar termos próximos a Nietzsche, ou novas fontes de produção de valor, ou uma mutação na sensibilidade coletiva (Guattari), curto-cicuitavam o regime dito hegemônico sem perderem sua energia nos confrontos diretos e fadados ao fracasso. Desde o grupo de motoboys em São Paulo que usam seus celulares como câmaras indiscretas e jogam seus filmes diretamente na rede, driblando o olhar midiático sobre a cidade, com mais de cem mil visitas por dia em seu site, até aquele performer solitário que é um dos primeiros a chegar ao local do acidente da TAM em Congonhas e com seu celular se faz de representante da ABIN em voz alta em meio aos policiais e bombeiros, negando ou permitindo a aterrissagem de helicópteros e simulando que é ele quem monitora o território de pouso, enquanto com o outro ouvido vai captando as notícias da CNN que informam, entre outras coisas, a chegada iminente (de helicóptero) do governador Serra, ajudando-o na sua “performance”, vejo pequenas máquinas de guerra por toda parte, introduzindo um fator caos ou disseminando germes para uma nova sensibilidade. Loucos, ilegais, favelados, poetas, músicos, desempregados, precários, invisíveis de todo tipo percorrem nossas cidades e reivindicam outra coisa, para a qual não temos ainda um nome. Todos eles têm consciência da desproporção presente na relação de forças, dos biopoderes vigentes e seu racismo hegemônico e escravagista, para retomar os termos de Giuseppe Cocco e Toni Negri na sua análise da América Latina, da perversão das leis de incentivo e da manipulação do grande capital, da máfia que domina nosso Congresso, da servidão maquínica, das semióticas capitalísticas que se dirigem diretamente aos afetos, porém nada disso parece desmobilizá-los, ao contrário… e ao recusarem a designação de periferia, ou de excluídos, ou mesmo de minorias, ao rejeitarem o lugar de desvalidos nessa guerra desigual, ao evitarem a guerra frontal ou a militarização da luta ou o ressentimento lamuriento ou a reivindicação assistencialista da inclusão social, sem descuidarem do esforço de atingir, por pressão crescente, a própria legislação vigente, eles simplesmente reiteram a afirmação daquilo de que são portadores, emitindo torpedos de afeto, insistindo na constituição do comum e no jogo de singularidades que parece ser sua mais obstinada convicção, por mais que na boca deles isso leve outros nomes, menos nobres, ou filosoficamente incipientes. Todos eles são, a meu ver, máquinas de guerra que, segundo a própria definição de Deleuze e Guattari, não tem por objeto a guerra, e sim a criação. Mas por que, num contexto em que já não dispomos de qualquer exterioridade dada ou prévia que pudesse ancorar nossa resistência, como há décadas atrás poderia ser o caso do proletário, do marginal, do louco, do artista, num contexto em que todos eles foram devorados, num momento de tamanha homogeneização planetária, em que já não há fora algum e estamos todos dentro de uma megamáquina e seus mecanismos cada vez mais capilares de calibragem dos afetos, inclusive a calibragem do medo e da ameaça, para falar como Brian Massumi, por que justamente aí, nesse momento em que aparentemente a totalidade do planeta, do espaço, do tempo, da existência, do corpo e da subjetividade estão tomados de assalto, por que é justamente em meio a tal ambiência de controle maquínico, com seus efeitos niilísticos, que assistimos a esses revides improváveis e inusitados vindos dos lugares mais inesperados, reencontrando nos tchandalas (os “excluídos” da Índia, os sem-casta, banidos de todo comércio social) de hoje a imaginação biopolítica e a inteligência coletiva que desertaram inteiramente os espaços da representação política ou estética e sua estéril perversão? Uma coisa é certa: desafiando o sequestro do comum, disseminando seus focos autopoiéticos, de irradiação, contágio e propagação intensivos, subrepresentativos, pré-individuais, a-significantes, eles reconfiguram a subjetividade coletiva e sua potência de afetação… Eles não têm nome, não têm poder, não dominam as instituições, mal sabemos se existem e onde estão, mas é a partir desse limiar flutuante que constrém seu plano de consistência. Não quero idealizá-los, e se os uso de maneira um pouco similar ao modo em que Nietzsche usou os judeus de seu tempo (em quem via uma “promessa” de outra Europa), ou Deleuze usou os esquizos (para pensar numa força de desterritorialização do social), é apenas para dizer isto: talvez sejam uma entre as inúmeras máquinas de guerra do tempo presente, que se infiltram e desviam e deslocam a lógica brutal da guerra econômica e militar e cultural levada a cabo pelos poderes instituídos, fazendo valer seus estados de potência e sua força constituinte, recusando precisamente a vontade pelo poder.

Talvez caiba ainda uma última palavra, na esteira de uma intuição poderosa anunciada por Félix Guattari há alguns anos atrás. Com a disseminação dos computadores pessoais, minicâmeras, celiulares, e com os meios tecnológicos à disposição de todos hoje em dia (e no grupo Intersecções esse tema foi retomado diversas vezes – “temos os meios de dominar todas as etapas da cadeia produtiva cultural”), segundo Guattari estaríamos entrando numa “era pós-midiática”. Através da multiplicação de focos de criação e de emissão e de irradiação, com a hibridação do computador, televisão, telefone, com as novas interações homem-máquina, e a partir da interconectividade horizontal e rizomática que ela propicia, já estamos em condições de liberar-nos da hipnose e do despotismo da mídia centralizada e piramidal. Uma era pós-midiática pode soar hoje um sonho utópico, mas a descrição feita acima, proveniente apenas de dois dias de encontro com uma dezena de pessoas proveniente dos mais diversos cantos do Brasil, não parece ser a ponta de um iceberg? Não assistimos, aí, a uma tendência crescente e esparramada, com desdobramentos imprevisíveis? Assim, a partir da sustentabilidade (econômica, pulsional, semiótica) das mídias autônomas, poderíamos retomar a intuição guattariana de uma era pós-midiática que se anuncia.

*Este texto foi produzido como análise do Forum Onda Cidadã 2007 – Grupo Interseções -  no Circo Voador, RJ.

Cavalo Motor na Estrada

Considerado um dos mais irrequietos criadores da cena mineira e um dos mais gravados de sua geração, o compositor Makely Ka lança seu segundo trabalho solo em turnê por quatro capitais nordestinas. Com show de lançamento em Belo Horizonte, Salvador, Maceió, Recife e Natal o projeto disponibiliza gratuitamente as músicas para plataformas móveis através de aplicativo no iTunes.

Makely propõe com este novo trabalho a elaboração de suas referências a partir da idéia-conceito de uma máquina rítmico-poética que seja capaz de encadear timbres eletro-acústicos com a pulsação cardiovascular e os sinais elétricos do sistema nervoso. Na sua máquina orgânico-sintética, o artista elabora suas influências mesclando elementos da tradição popular e oral do Nordeste com elementos da escola harmônica mineira. Nascido no Piauí e criado no interior de Minas Gerais, o artista trabalha a simbiose entre as diferentes culturas, condensadas na imagem poético-geográfica de um sertão-cerrado.

Para Makely Ka, utilizar os aplicativos para download em plataformas móveis é uma forma de criar uma nova interlocução com o público. Após o download, os usuários terão acesso não só às primeiras quatro faixas inéditas de Cavalo Motor, mas também às faixas do CD Autófago (álbum anterior lançado por Makely), às letras das músicas, ficha técnica, vídeos e textos publicados sobre o trabalho do artista. Além disso, o usuário também terá acesso à Rádio, espaço que disponibiliza as faixas de mais de uma centena de composições suas gravadas por outros artistas. Com o aplicativo, o público poderá também acessar as redes sociais e o site oficial do músico. A cada música finalizada o aplicativo será atualizado até completar o álbum com as doze faixas previstas.

Acompanhado de seus violões e uma pegada vigorosa, mesclando sua verve crítica com muito humor e despojamento, o artista vai fazer um show solo com participação de convidados em cada cidade. Em BH recebeu a cantora Titane. No show de Salvador, Makely contou com a participação especial da cantora Cláudia Cunha. Em Maceió quem sobe no palco são os cantores e compositores Naldinho e Deyves. Em Recife o artista receberá a cantora e compositora Alessandra Leão. Em Natal será acompanhado pelo músico Paulo Sarkis e pelo compositor Esso.

Buscando sustentabilidade sem o apoio de leis de incentivo ou qualquer tipo de patrocínio, o artista viabilizou a turnê através parcerias estabelecidas com os teatros e espaços culturais de cada cidade, mediados por organizações da sociedade civil como os Fóruns Estaduais e  as Cooperativas de Música, que têm colaborado também com a logística dos espetáculos e o Circuito Fora do Eixo, que está dando suporte na divulgação. A viagem foi programada também dentro das possibilidades oferecidas pelo serviço da empresa aérea conhecido como Giro TAM.

O aplicativo iTunes está disponível em: http://bit.ly/dXoh2a

Chuta a família mineira!

Foto de Flora Rajão

Esse é o refrão de uma das marchinhas que se pôde ouvir pelas ruas do Centro de Belo Horizonte nas ultimas semanas, mais especificamente no Bairro de Santa Tereza e nas imediações da Praça da Estação nos sábados à tarde. Não é o único, mas chama a atenção ser justamente esse um dos mais cantados.

Vale destacar alguns aspectos no mínimo curiosos desse fenômeno, que traz consigo toda uma nova perspectiva cultural, política e comportamental para a cidade.

Em primeiro lugar se destaca a afronta clara a uma idéia de moral e bons costumes representados pela tradicional família mineira. O imaginário nacional que se criou em torno de Minas Gerais dá conta de um estado que abriga uma população conservadora e recatada, passiva e ingenuamente desconfiada. Esse imaginário remonta ao período colonial, formando uma espécie de caricatura generalizada que não corresponde às transformações ocorridas no decorrer do processo de urbanização intensa de Belo Horizonte e das principais cidades do estado nas últimas décadas. Chutar a família mineira é, portanto, mais do que uma simples agressão verbal, um grito de inconformismo, uma tomada de consciência e uma chamada para si de responsabilidade. Não é gratuito o fato de que o movimento do carnaval de rua, que popularizou a marchinha desbocada, seja de certa forma o desdobramento de um protesto lúdico e inusitado contra um decreto municipal que proibia eventos nas praças públicas da cidade. Mais do que contestar o decreto que dá prosseguimento ao processo de higienização urbana e prepara o terreno para a especulação comercial dos espaços públicos da cidade, a Praia da Estação é uma manifestação espontânea, um happening em resposta à suposta passividade e conservadorismo dos mineiros. Ou alguém considera uma grande onda de plástico azul vestida por dezenas de manifestantes usando sungas e biquínis descendo a principal avenida da cidade até desaguar numa praia de concreto e cimento e se misturar com a água de um caminhão pipa e da fonte que jorra ali uma manifestação conservadora e recatada?

O movimento da Praia da Estação é sem dúvida um dos gatilhos da retomada do carnaval de rua em BH e para entender o fenômeno é preciso identificar alguns dos atores envolvidos. Quem puxou o bonde inicialmente foram militantes de movimentos sociais de resistência urbana e logo receberam a adesão da classe artística. A maioria participante de coletivos híbridos formados por músicos, produtores, designers, artistas plásticos e estudantes, muitos ligados ao universo do rock alternativo. Pode parecer estranho que a retomada do carnaval na cidade esteja associada a esse perfil, mas quem conhece a cena sabe que só uma atitude punk, no melhor sentido do termo, poderia promover uma reviravolta. É um tratamento de choque na sensibilidade supostamente acomodada de não cultivar tradição recente de carnaval de rua. Claro que o vírus se espalhou e outras tribos se agregaram ao movimento, engrossando o caldo e dando aos blocos a diversidade e mistura que uma festa carnavalesca exige. Inclusive os sambistas, claro, cansados de trazer cariocas da Lapa para cá e nunca serem convidados pra tocar na cidade maravilhosa.

E o viral se espalhou por outras praias também, em Juiz de Fora por exemplo, uma das maiores cidades do interior, um grupo igualmente aguerrido também resolveu brincar em casa e organizaram o 1º Concurso de Marchinhas, tomaram as ruas da cidade com o Bloco Parangolé Valvulado e acabaram fomentando a criação de outros blocos num efeito cascata.

Mas é interessante perceber também que uma grande movimentação aconteceu virtualmente, paralela e simultânea através de sites, blogs, Twitter, mas principalmente no Facebook, onde os ensaios eram marcados, os horários de saída dos blocos organizados, as letras e gravações das marchinhas disponibilizadas e claro, o resultado, com fotos, vídeos e depoimentos pós-saída. É a militância 2.0.

Por causa dessa sincronicidade virtual os vinte e poucos blocos na verdade formavam praticamente um só bloco com algumas centenas de pessoas, porque todos participaram de todas as saídas e cantaram todas as marchinhas. Nos primeiros dias eram pouco mais de duzentas pessoas, mas na terça de carnaval havia mais de duas mil pessoas num único bloco, ou seja, todos os blocos juntos graças ao boca-a-boca físico e virtual. Pode parecer pouco para uma cidade de 4 milhões de habitantes, mas é muito significativo para quem conhece a realidade carnavalesca da capital mineira. Além disso mais da metade dos blocos saiu pela primeira vez esse ano, e todos com marchinhas próprias cantadas em coro.

A ideia que se tinha até então do carnaval em Belo Horizonte pode ser resumida na seguinte imagem: alguém andando nu, sem ser incomodado, na pista central da principal avenida da cidade, a Afonso Pena, em plena terça-feira de carnaval. Não se encontra alma-viva pelas ruas, nada de trânsito, aglomerações, tudo fechado, quase uma cidade fantasma.

Ora, uma cidade onde durante o carnaval as manifestações espontâneas dos foliões pelas ruas é proibida, onde a opção é viajar ou ficar em casa, é sinal de que alguma coisa está errada. Primeiro porque é caro viajar, principalmente nesse período. É incômodo, as estradas ficam cheias, aeroportos e rodoviárias insuportáveis. Não haver uma opção digna para pular o carnaval a não ser viajar é indício claro de um tipo de esquizofrenia na relação da cidade com suas opções de lazer. Parte da população trabalha o ano inteiro e extravasa parte da pressão e da opressão nesse período. Não fornecer essa válvula de escape é montar uma bomba relógio que pode explodir a qualquer momento na rua, no trânsito, no estádio de futebol.

É óbvio que a falta de opção contribui para aumentar a tensão social. A catarse do carnaval ajuda a manter um certo equilíbrio. Quem pode viajar no período do carnaval e aliviar o estresse do dia-a-dia é quem tem dinheiro. A maioria menos afortunada tem de contentar-se com os desfiles das escolas destituído do luxo e do glamour das escolas do grupo especial do Rio ou então acompanhar os flashes da folia pela cobertura jornalística na TV. Nenhuma das opções é nada animadora. Se todos pagam impostos e têm direito constitucional à diversão e ao lazer o poder público não pode simplesmente ignorar essa demanda legítima.

Mesmo com apoio oficial e um esforço para fazer acontecer as escolas de samba de Belo Horizonte em geral são arremedos das grandes agremiações cariocas – esse ano inclusive houve protestos devido a compra de adereços e carros alegóricos utilizado pelas escolas do Rio no ano anterior. Um fato curioso foi a transferência dos desfiles das escolas, que aconteceram nos últimos anos na Via 240 do bairro Aarão Reis, de acesso difícil para quem vai do Centro. Esse ano as arquibancadas foram montadas estrategicamente na Avenida dos Andradas, no trecho chamado pelo pelos mais afetados de Boulevard Arrudas, exatamente em frente à Praça da Estação. Curiosa a atitude de ocupação e enfrentamento ensaiada pela Prefeitura. Surtiu efeito contrário, porque os blocos não só ocuparam o espaço, como foram incorporados pelas escolas mais descoladas e visionárias, que perceberam ali a possibilidade de outra via integração com a população da cidade.

Apesar dos investimentos públicos da ordem de 1,5 milhão ninguém saiu do “sambódromo” cantando nenhum dos sambas-enredo. Quando a festa começa a ficar cada vez mais corporativa inclusive no tradicional carnaval das cidades históricas do interior do estado, com camisas e abadás vendidos a preços impraticáveis, chegando a dois salários mínimos, a manifestação de rua genuína e com toques de ingenuidade na capital parece recuperar um certo espirito anárquico da festa, antes da homogeneização elétrica baiana e da espetacularização turística carioca. As pessoas na rua fantasiadas, homens travestidos de mulher, piratas, bailarinas, Carmens Miranda e Anas de Hollanda de mãos dadas, crianças brincando, o bloco inteiro cantando espontaneamente, só aconteceu nos espaços não-oficiais.

Mas, se divertiu os foliões, o refrão também incomodou. Prova cabal de que a cidade sofre de algum tipo de esquizofrenia coletiva, o Bloco da PM, vestido a caráter com capacetes, escopetas, escudos e cacetetes, interrompeu a festa na Avenida Brasil sob a alegação de desordem no meio da tarde em pleno sábado de carnaval. Como diria Rafael Barros, o Tcha-Tcha, um dos principais articuladores da cena atual: “ pular carnaval em BH é um ato subversivo!”

Não há dúvida de que a força dessas marchinhas reside no potencial subversivo que elas carregam. Os blocos Alcova Libertina, Praia da Estação, Manjericão, Filhos de Tcha-Tcha, Peixoto, Tico-Tico Serra Copo, Podia Ser Pior, Tetê a Santa, Unidos do Samba Queixinho, Coletivo do Delírio, aPROAch, Mamá na Vaca, Bloco da Cidade, Vira o Santo, Beijo Elétrico, Unidas dos Grandes Lábios e outros tantos, para além do caráter lúdico e festivo emitem claramente um sinal político, às vezes mais sutil, outras direta e incisiva, mas todas transgredindo a ordem estabelecida. O que não impediu, todavia, que as marchinhas fossem tocadas na Rádio Inconfidência, a FM pública do Estado. E haja rivotril institucional!

Num plano mais fechado é um momento também de afirmação de toda uma geração de criadores que utiliza a potência transgressora do carnaval para se afirmar no cenário, aproximando as pessoas, formando público, ocupando os espaços. No momento em que se discute em todo o país a mudança da lei dos direitos autorais chama a atenção também o caráter coletivo do movimento, refletido na autoria das marchinhas, em geral creditadas aos coletivos. O detalhe, que pode ser verificado na publicação disponibilizada com as letras, soa como uma espécie de protesto subliminar à idéia de autoria, de posse, de exploração comercial de conteúdo artístico. E como negar que em algumas delas não há uma arquitetura cancional formidável? A própria marchinha da Alcova Libertina é um ótimo exemplo!

Outra conclusão imediata que se pode tirar deste carnaval é que ele reflete iniciativas recentes de ocupação cultural da cidade de uma forma libertária e criativa como o Duelo de MC’s no Viaduto de Santa Tereza, os painéis nos muros e shows relâmpago nas rotatórias pelo Coletivo Azucrina, as intervenções do Grupo Poro, as matérias inusitadas da TV Queijo Elétrico, as dicas antenadas do guia cultural Mixórdia, a ocupação do Mercado das Borboletas, além da militância festiva das bandas como o Graveola e o Lixo Polifônico, Dead Lovers, Pequena Morte, Fusile, Transmissor, Frito na Hora, Pêlos de Cachorro, Proa, Cinza, Cães do Cerrado, Julgamento e Monno, entre outras, gestoras e participantes de festivais como o Transborda e o Outro Rock.

É impressionante a capacidade de aglutinação e articulação dessa turma. Sem nenhum tipo de apoio oficial, aliás, contra todos os decretos e coação policial fizeram uma das festas mais bonitas da cidade nos últimos tempos. Daqui a alguns anos, quando o carnaval de Belo Horizonte for referência nacional – não pela opulência nem pela tradição, mas pela simplicidade e entusiasmo – quem foi atrás de outros trios não vai poder dizer que colocou o bloco na rua e ajudou a inventar o carnaval da capital mais efervescente do país neste início de década.

Nota:
Um detalhe interessante é que não houve fiscalização do ECAD nas concentrações, como ocorreu no Rio com muitos blocos. Certamente eles ainda não atentaram para o fato; analógicos que são, não captaram os movimentos sísmicos virtuais. Por outro lado, se fossem seguir a regra aplicada aos blocos cariocas os fiscais sairiam de mãos vazias, já que o custo de saída dos blocos foi praticamente zero.

Mini-turnê pelo Nordeste

Rota da turnê

Diante da insegurança e dependência causadas pelas leis de incentivo e a suposta impossibilidade de artistas sobreviverem hoje sem patrocínio, resolvi arriscar uma circulação por conta e risco. Estou programando uma mini-turnê em maio pelo Nordeste.  Serão apresentações solo em pequenos teatros de quatro capitais, onde vou mostrar o repertório do meu próximo disco, o Cavalo Motor. Estou contando com as dicas e a colaboração de alguns amigos desde a produção, assessoria de imprensa e divulgação até a hospedagem. Em todos os teatros vou trabalhar com bilheteria para cobrir os gastos. A idéia da turnê começou a se materializar depois de visitar todas as cidades onde volto – agora para tocar – pelo menos uma vez nos últimos dois anos em encontros, feiras e seminários. Na verdade, recentemente estive quatro vezes em Recife,  três em Salvador, duas em Maceió e outra em Natal. Nessas ocasiões participei de debates com músicos, produtores, gestores públicos e jornalistas, dei oficinas e palestras sobre a organização do setor, ajudei na criação de fóruns de discussão, redes e cooperativas, como a COMUSA em Alagoas e a MIC na Bahia. O fato é que eu gosto de viajar, seja a trabalho ou não e as viagens funcionam também para fortalecer os vínculos, conhecer melhor a cena local e identificar os possíveis parceiros. Mas muitas vezes sou cobrado, e também sinto falta de mostrar meu trabalho autoral, que geralmente fica restrito ao quarto de hotel nessas circunstâncias.

Alem dos contatos que estabeleci nesses locais programei as cidades a partir das possibilidades do Giro TAM, que é um serviço oferecido pela empresa e permite que você faça quatro trechos pelo preço de um dentro de uma mesma rota. A lógica é que você comprando um trecho de ida e volta pode parar pelo caminho, dois ou três dias, pagando somente a taxa de embarque em cada aeroporto. É o ideal para uma pequena turnê. Atualmente as partidas podem ser somente de quatro cidades (Belo Horizonte, São Paulo, Rio de Janeiro e Salvador), mas segundo o site da empresa em breve o serviço será estendido para outros aeroportos. Outro detalhe é que as compras tem de ser feitas pela central de atendimento ou diretamente nas lojas ou agências de viagem. Aqui no site podem ser feitas as simulações de roteiro.

Então montei meu roteiro partindo de Belo Horizonte dia 24 de maio. Desembarco e toco em Salvador dia 25 no Teatro do SESI no Rio Vermelho, sigo para Maceió dia 27 e toco no Teatro de Arena Sérgio Cardoso no dia seguinte, chego em Recife dia 29 e sigo dia 1o de junho para Natal onde encerro o giro. As datas em Recife e Natal ainda não estão confirmadas, mas a negociação com o teatro da Livraria Cultura na capital pernambucana e a Casa da Ribeira na capital potiguar estão avançadas. Estou aberto a outras sugestões!

Além de experimentar o serviço minha expectativa é muito grande porque nesse novo trabalho eu utilizo muitas referências da música nordestina, de ritmos a métricas comuns na tradição de herança ibérica, que de alguma forma foram sendo traduzidos no meu trabalho pela peculiaridade harmônica da música mineira. A opção de um show solo, além de obviamente reduzir os custos, vai servir para testar o repertório de uma forma mais intimista e sem subterfúgios, olho-no-olho. Contribui também o fato de que serão todos pequenos teatros, para 100 ou 150 pessoas.

Se alguém aqui estiver na rota do giro, vai ser muito bem-vindo o apoio na divulgação e, claro, a presença no dia do show.

Mais informações, me escrevam: contato@makelyka.com.br