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Meta-viagem

“Eu odeio as viagens e os viajantes. E no entanto estou eu aqui disposto a relatar as minhas expedições!”

Assim Claude Lévi-Strauss começa o relato de sua célebre viagem ao interior do Brasil, entre 1935 e 1939.  Mais que um simples diário de viagem, Tristes Trópicos é um ensaio que lançou as bases de uma nova etnografia, mais literária, menos técnica.

Desenvolvi uma certa antipatia com a maioria dos relatos de viagem, principalmente esses que entopem as livrarias dos aeroportos. Tenho especial angústia com as peripécias de viajantes que deram a volta ao mundo com o mesmo par de sapatos, navegantes que cruzaram os sete mares num caiaque e ciclistas que foram até o pólo-norte. Morro de tédio só de abrir uma página qualquer desses relatos e ler façanhas de distâncias cumpridas, de dificuldades superadas, de coragem e superação sobre-humanas. Me soam quase todos livros de auto-ajuda camuflados com o verniz da aventura. É como se o viajante vendesse a imagem de que todos conseguem alcançar seu objetivo se forem organizados, persistentes, dedicados e não desistirem nunca dos seus sonhos. É o modelo ideal de liderança empresarial, aquela experiência de superação e ousadia que poderia ser transposta para o mercado financeiro. Cheira a campanha publicitária para depois render palestras motivacionais para executivos e empresários.  Muitos trazem detalhes exóticos e pitorescos que fazem a alegria das pessoas civilizadas, dos moradores das grandes cidades enclausurados em seus apartamentos claustrofóbicos que sonham com a liberdade de uma grande aventura.

Não vejo sentido algum em cumprir distâncias por cumprir, sem um propósito que justifique além do simples deslocamento.

Essa viagem teve início com um objetivo muito claro que era recolher material para finalizar meu próximo disco. Além disso também captar imagens e paisagens sonoras para utilizar no show, fotos, mapas e relatos para editar e material para realizar uma exposição. Mas todos esses eram desdobramentos posteriores, que ampliavam o escopo original do projeto.

O cerne da idéia surgiu a partir de uma metáfora geográfica, a identidade do cerrado com a música mineira e a emulação da caatinga na música nordestina. A minha música vem dessas duas matrizes que se encontram e se misturam biológica e literariamente no Grande Sertão. Seguir o percurso de Riobaldo Tatarana foi um desafio lúdico e consequência natural das minhas escolhas. A bicicleta foi uma necessidade prática que amarra o conceito todo e projeta a dimensão simbólica de uma espécie de jagunço contemporâneo, de independência, de um fora da lei. Essa contravenção começou de forma bem pragmática, pelo fato da bicicleta transitar teoricamente fora das leis de trânsito que regulamentam a circulação dos veículos. Com o tempo foi ganhando um caráter lúdico, a partir da abordagem das pessoas e da imagem que era projetada durante a viagem pelo Cavalo-Motor.

O romance rosiano nesse sentido foi a escolha mais óbvia, mas também a mais difícil. Para além dos meus propósitos é o romance de formação da identidade cultural brasileira. Nele estão as questões políticas, sociais, psicológicas e metafísicas mais importantes pelas quais o país passou no último século. É a nossa Odisséia, desbravando a trilha aberta por Euclides da Cunha em “Os Sertões”, o livro de Guimarães Rosa aprofunda e esmiúça nossa identidade sertaneja, ao mesmo tempo em que amplia e subverte o cânone da interpretação clássica do Brasil estabelecida a partir da década de 30 com Gilberto Freire, Caio Prado Jr., Sérgio Buarque e outros intérpretes que identificaram e traduziram os índices de nossa formação.

No “Grande Sertão: Veredas” no entanto não há interpretação, sua linguagem de invenção recria a voz do Brasil profundo através de um jagunço letrado. Esse paradoxo dá bem a dimensão da nossa formação complexa, de mistura e cruzamento de referências, do caldo de cultura ibérica que ferveu sob o sol do sertão brasileiro.

Confundindo o real com a ficção, Riobaldo Tatarana e Antônio Dó – o jagunço que viveu e fez fama na região de São Francisco – o Liso do Suçuarão e o grande Tabuleiro do alto-norte de Minas, a cartografia humana e geográfica se confunde e se perde nos nomes, nas trilhas labirínticas, nas histórias contadas, nos galhos das estradas, nos topônimos que mudaram de nome ou que foram inventados. A própria narrativa, repleta de idas e vindas, recortada de intertextos, como uma ilha de edição mental que forma sinapses a cada frase, dá idéia da dificuldade de estabelecer uma sequência linear temporal que oriente o percurso geográfico. Fiz a minha escolha priorizando alguns pontos de referência – poderia passar anos percorrendo os caminhos do sertão sem jamais cumprir todo o percurso do personagem. No trajeto que tracei tentei privilegiar alguns pontos que marcam passagens paradigmáticas do livro: a Barra do Rio-de-Janeiro, o Córrego do Batistério, o Liso do Suçuarão, o Paredão de Minas e as Veredas Mortas. Esse último foi o único ponto que não consegui localizar, por imprecisão intencional do livro. Nas Veredas Mortas, o lugar do pacto, a cartografia se perde, os nomes se confundem, os personagens ficam suspensos no vazio. O próprio Riobaldo não consegue retornar ao lugar onde teria feito o pacto, que tem tanto o caráter místico quanto representa uma espécie de contrato social projetando sua ascensão sobre os demais jagunços que vai marcar o início da liderança do bando. Essa imprecisão me levou a abortar a busca da localização aproximada das Veredas Mortas, que estariam provavelmente em algum ponto perdido do vasto município de João Pinheiro.

Durante a viagem vou anotando e coletando aleatoriamente informações sobre a flora, a fauna, as bacias hidrográficas, o relevo e os afloramentos rochosos, os costumes dos moradores, as características de cada cidade e povoado, a história e as manifestações culturais, as festas religiosas e profanas, entre outros detalhes. Tudo isso com o olhar de um anti-especialista, sem compromisso com metodologias de pesquisa ou procedimentos científicos. O único critério é a curiosidade, o interesse em conhecer um pouco mais sobre um determinado aspecto da região.

Os relatos por sua vez são impressões rápidas do impacto que os lugares, as pessoas e as situações deixaram, são rascunhos sem maiores pretensões literárias, mais como testemunho de experiências vividas. Talvez eu retorne a eles posteriormente para tentar dar uma forma mais coesa, buscando uma unidade, complementando as informações, detalhando alguma passagem mais superficial, esclarecendo algum trecho mais confuso. Por enquanto são apenas um esboço, um apontamento.

Fica claro portanto que a idéia inicial do projeto foi sendo re-elaborada, pelo menos do ponto de vista subjetivo, o trajeto foi alterado pontualmente, as metas foram ganhando outro sentido e as prospecções para o disco, o livro, o espetáculo, foram se tornando detalhes menores diante da intensidade das experiências vividas.  Fui descobrindo aos poucos que o propósito foi muito além da viagem, se transformou em meta-viagem.

Por fim, ainda que não tenha nenhum outro desdobramento, só o fato de saber que pelo menos uma dúzia de pessoas começaram a ler o “Grande Sertão: Veredas” a partir desse projeto já me sinto totalmente realizado. Se servir ainda para instigar outros a conhecerem o cerrado, se interessarem pela cultura do povo que vive nessa região tão emblemática do país, pela preservação desse bioma, a viagem também terá cumprido seu papel.

Postado em 22/08/2012 Cavalo Motor

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Sobre o autor

Makely Ka (Valença do Piauí, 1975) é um poeta cantor, instrumentista, produtor cultural e compositor brasileiro. Makely é poeta, compositor e agitador cultural. Atuando em diversas áreas como a música, a poesia e o vídeo. Incorpora à sua produção artística um componente crítico e reflexivo. Autodidata, desenvolveu uma poética musical própria, amalgamando elementos da trova e do aboio de herança ibérica às novas linguagens sonoras urbanas como o rap, do despojamento da poesia marginal ao rigor formal da poesia concreta.

(5) respostas

  1. Carlos Farias
    22/08/2012 de 11:37 · Responder

    Makely, quero cumprimentá-lo por esse projeto, tão rico e cheio de possíveis desdobramentos. Sua odisséia me enche de alegria. Boa viagem!

  2. Luiz Marques
    24/08/2012 de 15:34 · Responder

    Grandes realizações surgem de idéias que são como sementes jogadas ao vento turvo das paixões! Parabéns Makely por sonhar e dividir sua seara com todos nós!
    Sucesso e alegrias!

  3. walter ianni
    29/08/2012 de 14:29 · Responder

    Grande Makely, parabéns por mais esse projeto! Grande abraço!

  4. Anna Ly
    06/10/2012 de 09:39 · Responder

    Estou impressionada, encantada com este relato. De fácil leitura e tão rico, interessante, abrangente. Parabéns pelos escritos, pela ousadia, originalidade… enfim… tenho que acabar de ler… e ainda nem escutei. Que bom, terei mais surpresas!

    • makadm
      02/01/2013 de 15:27 · Responder

      Oi Anna, ainda estou escrevendo o restante dos relatos, esse ano eu termino!

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