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Aula sobre letra

Nas oficinas que costumo ministrar sempre surge a questão do processo de criação, mais especificamente sobre a letra de música, que é o que me ocupa a maior parte do tempo ultimamente (não necessariamente a questão sobre o processo, mas o processo propriamente dito). A relação entre a letra e a melodia remete a eras remotas, aos versos homéricos, passando pelos trovadores provençais e extendendo-se por todo o continente africano e parte da ásia onde ainda se mantêm vivas as línguas tonais. Mas não precisamos ir tão longe! Na troca de correspondências entre dois de nossos principais letristas contemporâneos – um que veio da poesia dos livros, portanto escrita, e se tornou um de nossos compositores mais executados nas rádios de todo o mundo; e outro que jamais escreveu um verso que seja desvinculado de uma melodia (embora tenha escrito romances) e possivelmente é o nosso mais exímio letrista de todos os tempos.

Chama a atenção a sólida argumentação de Chico para manter sua letra, recusando com todo cuidado as modificações sugeridas pelo poetinha. Não devia ser fácil, mesmo para um Chico Buarque, recusar as sugestões de Vinícius! Mas Chico aparentemente convenceu seu parceiro, a julgar pelo fato de que prevaleceu sua versão.

Boa aula!

De Vinícius de Moraes para Chico Buarque
Mar del Plata, 24 de janeiro de 1971

Chiquérrimo,
Dei uma apertada linda na sua letra, depois que você partiu, porque achei que valia a pena trabalhar mais um pouquinho sobre ela, sobre aqueles hiatos que havia, adicionando duas ou três idéias que tive. Mandei-a em carta a você, mas Toquinho, com a cara mais séria do mundo, me disse que Sérgio [Buarque de Hollanda] morava em Buri, 11, e lá se foi a carta para Buri, 11.

Mas, como você me disse no telefone que não tinha recebido, estou mandando outra para ver se você concorda com as modificações feitas.

Claro que a letra é sua, e eu nada mais fiz que dar uma aparafusada geral. Às vezes o cara de fora vê melhor essas coisas.

Enfim, porra, aí vai ela. Dei-lhe o nome de “Valsa hippie”, porque parece-me que tua letra tem esse elemento hippie que dá um encanto todo moderno à valsa, brasileira e antigona. Que é que você acha? O pessoal aqui, no princípio, estranhou um pouco, mas depois se amarrou na idéia. Escreva logo, dizendo o que você achou.

“Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito mais quente do que comumente costumava olhar
E não falou mal da poesia como mania sua de falar
E nem deixou-a só num canto; pra seu grande espanto disse: vamos nos amar…
Aí ela se recordou do tempo em que saíam para namorar
E pôs seu vestido dourado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como a gente antiga costumava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a bailar…
E logo toda a vizinhança ao som daquela dança foi e despertou
E veio para a praça escura, e muita gente jura que se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu em paz”.

De Chico Buarque para Vinícius de Moraes

Rio, 2 de fevereiro de 1971

Caro poeta,
Recebi as duas cartas e fiquei meio embananado. É que eu já estava cantando aquela letra, com hiato e tudo, gostando e me acostumando a ela. Também porque, como você já sabe, o público tem recebido a valsinha com o maior entusiasmo, pedindo bis e tudo. Sem exagero, ela é o ponto alto do show, junto com o “Apesar de você”. Então dá um certo medo de mudar demais. Enfim, a música é sua e a discussão continua aberta. Vou tentar defender, por pontos, a minha opinião. Estude o meu caso, exponha-o a Toquinho e Gesse, e se não gostar foda-se, ou fodo-me eu.

“Valsa hippie” é um título forte. É bonito, mas pode parecer forçação de barra, com tudo que há de hippie por aí. “Valsa hippie” ligado à filosofia hippie como você a ligou, é um título perfeito.
Mas hippie, para o grande público, já deixou de ser filosofia para ser a moda pra frente de se usar roupa e cabelo. Aí já não tem nada a ver. Pela mesma razão eu prefiro que o nosso personagem xingue ou, mais delicado, maldiga a vida, em vez de falar mal da poesia. A sua solução é mais bonita e completa, mas eu acho que ela diminui o efeito do que se segue. Esse homem da primeira estrofe é o anti-hippy. Acho mesmo que ele nunca soube o que é poesia. É bancário e está com o saco cheio e está sempre mandando sua mulher à merda. Quer dizer, neste dia ele chegou diferente, não maldisse (ou “xingou” mesmo) a vida tanto e convidou-a pra rodar.

“Convidou-a pra rodar” eu gosto muito, poeta, deixa ficar. Rodar que é dar um passeio e é dançar. Depois eu acho que, se ele já for convidando a coitada para amar, perde-se o suspense do vestido no armário e a tesão da trepada final. “Pra seu grande espanto”, você tem razão, é melhor que “para seu espanto”. Só que eu esqueci que ia por itens.

Vamos lá:

* Apesar do Orestes (vestido de dourado é lindo), eu gosto muito do som do vestido decotado. É gostoso de cantar vestidodecotado. E para ficar dourado, o vestido fica com o acento tendendo para a primeira sílaba. Não chega a ser um acento, mas é quase. Esse verso é, aliás, o que mais agrada, em geral. E eu também gosto do decotado ligado ao “ousar” que ela não queria por causa do marido chato e quadrado. Escuta, ô poeta, não leva a mal a minha impertinência, mas você precisava estar aqui para ver como a turma gosta, e o jeito dela gostar dessa valsa, assim à primeira vista. É por isso que estou puxando a sardinha mais para o lado da minha letra, que é mais simplória, do que pelas suas modificações que, enriquecendo os versos, talvez dificultem um pouco a compreensão imediata. E essa valsinha tem um apelo popular que nós não suspeitávamos.

* Ainda baseado no argumento acima, prefiro o “abraçar” ao “bailar”. Em suma, eu não mexeria na segunda estrofe.

* A terceira é a que mais me preocupa. Você está certo quanto ao “o mundo” em vez de “a gente”. Ah, voltando à estrofe anterior, gostei do último versos onde você diz “e cheios de ternura e graça” em vez de “e foram-se cheios de graça”. Agora, estou pensando em retomar
uma idéia anterior, quando eu pensava em colocá-los em estado de graça. Aproveitando a sua ternura, poderíamos fazer “Em estado de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar”. Só tem o probleminha da junção “em-estado”, o “em-e” numa sílaba só. Que é o mesmo problema do “começaram-a”. Mas você mesmo disse que o probleminha desaparece dependendo da maneira de se cantar. E eu tenho cantado “começaram a se abraçar” sem maiores danos. Enfim, veja aí o que você acha de tudo isso, desculpe a encheção de saco e
responda urgente.

* Há um outro problema: o pessoal do MPB-4 está querendo gravar essa valsa na marra. Eu disse que depende de sua autorização e eles estão aqui esperando. Eu também gostaria de gravar, se o senhor me permitisse, por que deu bolo com o “Apesar de você”, tenho sido perturbado e o disco deixou de ser prensado. Mas deu para tirar um sarro. É claro que não vendeu tanto quanto a “Tonga”, mas a “Banda” vendeu mais que o disco do Toquinho solando “Primavera”. Dê um abraço na Gesse, um beijo no Toquinho e peça à Silvana para mandar notícias sobre shows etc. Vou escrever a letra como me parece melhor. Veja aí e, se for o caso, enfie-a no ralo da banheira ou noutro buraco que você tiver à mão.

“Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a dum jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se usava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanta felicidade que toda a cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos
Tantos gritos roucos como não se ouvia mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu
Em paz.”

Postado em 11/05/2008 Blog!

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Sobre o autor

Makely Ka (Valença do Piauí, 1975) é um poeta cantor, instrumentista, produtor cultural e compositor brasileiro. Makely é poeta, compositor e agitador cultural. Atuando em diversas áreas como a música, a poesia e o vídeo. Incorpora à sua produção artística um componente crítico e reflexivo. Autodidata, desenvolveu uma poética musical própria, amalgamando elementos da trova e do aboio de herança ibérica às novas linguagens sonoras urbanas como o rap, do despojamento da poesia marginal ao rigor formal da poesia concreta.

(7) respostas

  1. Luiza
    12/05/2008 de 11:51 · Responder

    Bom demais!(e ainda bem que ficou a do Chico)

  2. marden
    12/05/2008 de 13:05 · Responder

    Makely, muitos músicos gravam composições suas. Tem planos de gravar composições de alguém?

  3. makely
    12/05/2008 de 13:47 · Responder

    Pois é Luiza, ainda bem!

    Marden meu caro, eu sou um péssimo intérprete do repertório alheio, melhor deixar essa função para alguém mais competente. Mas se ainda assim você se interessar, fui convidado para participar de um projeto onde canto algumas canções do Itamar Assumpção. Vai ser dia 25 de maio, na Praça da Liberdade às 14h, aqui em BH.

    Abraços

  4. Adenilson Barcelos de Miranda
    12/05/2008 de 22:25 · Responder

    Que delícia esta conversa por carta. É bacana mesmo saber destes detalhes de uma canção, uma letra, … Você bem podia me enviar uma carta heim!

  5. marden
    12/05/2008 de 22:26 · Responder

    Modéstia. Mas o complexo de artista explica isso! hahaha

    É que vez em quando ouço uma coisa e outra e fico imaginado como se dariam algumas parcerias.

    Imagina você e a Tereza Salgueiro do extinto grupo de fado Madredeus?

    Ou uma letra composta a oito mãos depois de alguns cafés com o Zé Cabaleiro, Tom zé e Lobão?!

    E ainda (ficando só entre algumas figurinhas já conhecidas mas sem esquecer dessa moçada que taí!)…você se apresentando com a Rita Lee e o Ney Matogrosso! Hein? haha

    Mas é bom ouvir seu trabalho sempre, cara!

    abração

    Ah, passa lá no meu blog! Tem umas coisas que queria que visse.

    http://outronome.blogspot.com/

  6. Dani Morreale
    14/05/2008 de 15:43 · Responder

    Isso que eu chamo de resistência para o bem! Tipo o que você costuma fazer. Ducaralho!!!!!!!!!!

  7. .ludmila ribeiro.
    19/05/2008 de 17:01 · Responder

    nó! fazia um tempo que não vinha aqui. tá cheio de coisa boa, mas com esses poetinhas camaradas aí… você arrasou!

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