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Tipo Exportação

Eduardo Tristão Girão para o Estado de Minas


Nova geração de músicos mineiros se organiza para conquistar mercado na Europa e EUA. Artistas apostam em cooperativas para vencer os reflexos da crise da indústria fonográfica

Uakti já foi. Milton Nascimento voltou há pouco tempo. Toninho Horta, vira e mexe, vai. O Sepultura praticamente mora lá. Alguns artistas mineiros (que representam a música feita aqui, nasceram ou estão associados ao estado) há muito descobriram rotas internacionais para mostar o trabalho que desenvolvem. Cada um na sua. O que começa a chamar a atenção, sobretudo em Belo Horizonte, é a mobilização de artistas de gerações mais recentes, unidos para conquistar espaço nos palcos do exterior. Com a indústria fonográfica e a economia mundial em crise, muitos já perceberam que a espera até ser “descoberto” pode ser interminável. É preciso correr atrás – e, por vezes, pelas vias alternativas.

O mais recente fato envolvendo esse novo movimento foi o convite que cinco artistas mineiros receberam para tocar no festival SXSW, que será realizado entre 13 e 22 de março nos Estados Unidos. Logo mais, Somba, Érika Machado, Pato Fu, Vander Lee e Kristoff Silva arrumarão as malas para mostrar parte da diversificada produção musical mineira num circuito de shows que envolve cerca de 300 bares e espaços culturais de Austin, onde quase 2 mil bandas (19 dessas são de outros estados brasileiros) se apresentarão ininterruptamente.

A oportunidade foi proporcionada em agosto, durante o projeto Imagem & Comprador, que promove rodadas de negócios entre artistas locais e compradores internacionais de música. Desenvolvido pela Brasil Música & Artes em parceria com a Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos, o projeto foi realizado em Belo Horizonte pela Cooperativa da Música de Minas e Sebrae, com o apoio da Secretaria de Estado da Cultura e Fórum da Música de Minas Gerais. Tanto a cooperativa quanto o fórum são entidades criadas por músicos da cidade.

“Queremos fazer muitos contatos, ver os shows e conhecer gente do mundo inteiro”, afirma Leo , do Somba, que fará seu primeiro show internacional. Se cantar exclusivamente em português atrapalha? “O público desse festival estará lá para ver coisa nova, diferente mesmo. Por isso estão indo bandas do mundo inteiro para lá, e não a mesmice. Fazemos rock, mas o unimos a elementos brasileiros, como o baião. Vamos levar o português cantado e o rock que não é o norte-americano”, responde.

NEGÓCIOS “As pessoas não conhecem nossa música, no máximo, Milton Nascimento. Às vezes, não sabem nem localizar Minas Gerais no mapa. Música e qualidade a gente tem, só falta nos organizarmos”, acredita o cantor e compositor Makely Ka. Ele esteve recentemente na Espanha, onde participou da feira de música Womex. Na ocasião, recebeu convite para retornar ao país em dezembro, para discutir possibilidades de intercâmbio cultural entre Minas Gerais e a região da Galícia. Resultado: acordo entre os dois lados deverá ser assinado mês que vem, prevendo semana de Minas na Galícia e vice-versa, incluindo não apenas música, mas também teatro, cinema e literatura.

“A Galícia pode servir de plataforma de lançamento da música mineira na Europa. Trabalhamos com o conceito de contraindústria, que não é a mesma lógica de 10 anos atrás, de ser descoberto por uma gravadora. Não é por acaso que fizemos uma cooperativa. Não queremos entrar na lógica da grande indústria, que está à beira da falência. Comércio justo e economia criativa são conceitos que perpassam nossa proposta”, explica Makely, presidente da Cooperativa da Música de Minas. “Não tenho dúvida de que a cena mais efervescente do país nesta década está em Minas. Aqui não há muitos guetos. As pessoas se frequentam e, a partir disso, surgem hibridismos. Isso não é comum, mas aqui acontece de maneira muito natural”, observa.

Outro fato aguardado com ansiedade pelos músicos mineiros é a publicação (provavelmente na segunda quinzena do mês que vem) do edital do Música Minas, programa de estímulo desenvolvido pela Secretaria de Estado da Cultura e representantes da classe musical do estado. Serão duas frentes de atuação: circulação estadual e nacional de artistas mineiros; e exportação da música produzida em Minas, o que prevê a inclusão de artistas em feiras de música nacionais e internacionais, produção de portal interativo e 166 passagens nacionais e internacionais para músicos mineiros se apresentarem no Brasil e exterior.

TOLERÂNCIA ZERO

“A aposta é que existe mercado para os mineiros, sim. Temos história e histórico para isso. A música do Milton, por exemplo, foi a que mais despertou interesse lá fora, depois da bossa nova”, diz o cantor e compositor Kristoff Silva, que embarca mês que vem para fazer show nos Estados Unidos. Mais do que nunca, ele acredita na divulgação do próprio trabalho por meio de shows, em vez de discos, cuja gravação se tornou “banal”. “Acho que a música mineira de hoje tem tolerância pequena à redundância. Temos música apaixonada por passeios harmônicos e de arranjo, pela palavra e por trair expectativas que o rádio constrói”, avalia.

Postado em 12/02/2009 Blog!

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Sobre o autor

Makely Ka (Valença do Piauí, 1975) é um poeta cantor, instrumentista, produtor cultural e compositor brasileiro. Makely é poeta, compositor e agitador cultural. Atuando em diversas áreas como a música, a poesia e o vídeo. Incorpora à sua produção artística um componente crítico e reflexivo. Autodidata, desenvolveu uma poética musical própria, amalgamando elementos da trova e do aboio de herança ibérica às novas linguagens sonoras urbanas como o rap, do despojamento da poesia marginal ao rigor formal da poesia concreta.

(11) respostas

  1. Andréa
    12/02/2009 de 12:54 · Responder

    ….daqui pra lá e de lá pra cá…
    O QUE É BOM VOA!

  2. Dani Morreale Diniz
    13/02/2009 de 14:59 · Responder

    de galícia a nova galáxia.

    passa
    porte
    livre
    e
    inter atividade
    sem posse
    de propriedade
    intelectual
    com classe!

    assim que é bom. . .

  3. Daphne
    14/02/2009 de 01:41 · Responder

    -ah eu gostei do comentário da Dani . . . tá bom Makely, vc é razoável, mas hj quem ganhou estrelinha foi a moça!

    rsrsrsrs

  4. Renato Villaça
    16/02/2009 de 09:36 · Responder

    Primeiro:

    a crise da indústria fonográfica não é um fenômeno brasileiro. é um acontecimento mundial. e é ótimo que esteja acontecendo, sobretudo no brasil, que desde pelo menos a década de 50, entregou suas rédeas às multinacionais da indústria do disco. Agora elas estão quebradas por aqui. Mas também no resto do mundo.

    não adianta mais esperar “ser descoberto”? não mesmo. mas, como o tal milton já cantou, ele é do mundo porque é minas gerais. e foi reconhecido por seu povo antes de se lançar ao planeta.

    na globalização não há produto bom se não for local.

    se vivemos num país em que há um projeto em andamento para distribuição de renda, igualdade social, acesso à educação para todos e construção de uma consciência de cidadania, só deveríamos concordar em vender nosso café e nossa picanha, se todos os brasileiros tivessem o direito de ter em seus pratos pelo menos uma xícara do primeiro, de boa qualidade, e um suculento bife, com gordura sobrando, do segundo. Senão, realmente estaremos priorizando a substituição da agricultura para alimentação pelo etanol, como os Estados Unidos.

    É isso que vocês querem?

    Eu não.

  5. Guilherme Castro
    17/02/2009 de 11:51 · Responder

    Caro Renato,

    Local já somos. Isto é intrínseco e indissociável a qualquer artista, por mais que ele não queira (vide sepultura). O que você é, de onde você vem, é refletido em sua arte, por mais que o próprio artista não ache ou negue. Isso é igual a sotaque. Quem fala em um determinado sotaque acha que não o tem. Só consegue reconhecer o diferente.

    Acho importante ter reconhecimento local, mas discordo veementemente de ser este o fator que leva um artista para além de duas fronteiras locais. O que leva um artista para fora de suas fronteiras é um raro casamento entre mídia, artista, produção e público. Sem apenas um destes elementos a coisa não vai pra frente. Mídia gera público e vice-versa (mais dificilmente nos dias de hoje). A mídia daqui prefere reconhecer algo que já teve alguma chancela, a se expor pelo juízo crítico. Haja vista as reportagens de capa do Hoje me Dia e do EM, matérias na rede Minas e etc, sobre os selecionados para o SXSW. Em raríssimas ocasiões os distintos artistas ganharam tal exposição, sobretudo em seus lançamentos de CDs (fato teoricamente até mais importante para cada um deles). O porque de tal exposição: uma chancela (externa) internacional de um festival grande. Um “carimbo” de que fulano vale a pena tocar por aqui. E olha que estes artistas ainda nem sabem como irão ou se irão mesmo, por falta de apoio.

    Bem, isso tudo é para dizer que, com a globalização, mais do que nunca o mercado é o mundo. E mais do que nunca, acabaram-se as regras, fórmulas e os caminhos tradicionais de como se dar bem. Estamos vivenciando uma selva mercadológica na música jamais vista, nem nos primórdios da era da gravação. E, nesse sentido, as únicas estratégias que me parecem viáveis para se apostar são aquelas relacionadas aos aspectos culturais arraigados, que independem de mercado ou de novas tecnologias e novas ferramentas. E o “santo de casa não faz milagre” infelismente é um desses aspectos arraigados por aqui.

    Outro aspecto arraigado por aqui é o jabá. E este parece que também não acaba, infelismente. Só que esse é um passo muito além da capacidade dos próprios artistas autoprodutores (e também contrário à filosofia de trabalho deles, coisa mais do que louvável).

    Ou seja, no fim das contas, acho que este investimento nas questões mercadológicas, nas estratégias de atuação e na atuação em si visam a um único objetivo: a sustentabilidade econômica de uma carreira artística autoral mais independente da grande mídia ou do mercado local vigente, mercado este que não consegue sustentar nada além de bandas cover ou alternativas mais popularescas.

    Bom, é isso que penso. Mas respeito sua opinião. E desculpe-me se fui muito verborrágico. Um abraço…

    Guilhemão

  6. Anonymous
    17/02/2009 de 18:47 · Responder

    estrelinha para o Gui!

  7. makely
    18/02/2009 de 03:32 · Responder

    Renato, vamos lá, um pouco de história:

    Consta que uma das primeiras excursões internacionais de músicos brasileiros foi realizada em 1922 pelos Oito Batutas. Antes disso eles tocavam na calçada da Avenida Rio Branco em frente ao Cinema Palais, no centro do Rio de Janeiro. O próprio sax tenor que Pixinguinha eternizou foi fruto dessa temporada parisiense quando o maestro entrou em contato com as primeiras jazz band que também excursionavam pela Europa naquela ocasião. Na volta da turnê histórica Pixinhguinha e Os Batutas seguiram para Buenos Aires. Quando retornou ao Brasil foi contratado pela Rádio Odeon. O resto é história!

    Tom Jobim se tornou conhecido e respeitado no Brasil depois de compor a trilha da peça Orfeu da Conceição de Vinícius de Morais que foi levada à grande tela como Orfeu Negro pelo francês Marcel Camus. O filme levou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro e a Palma de Ouro em Cannes no ano da graça de 1959. Antes disso Tom era copista, arranjador anônimo e pianista de casas noturnas cariocas, sem muitas perspectivas, conforme revelou em depoimentos. Mesmo a Bossa Nova, lançada oficialmente em 1958 com o LP Chega de Saudades de João Gilberto, só seria reconhecida no Brasil depois da histórica apresentação no Carnegie Hall de Nova York em 1962.

    O próprio Milton Nascimento que você citou, depois de ganhar o Festival Internacional da Canção, que aconteceu no Rio de Janeiro em 1967, gravou nos Estados Unidos aquele que é considerado seu primeiro disco oficial de carreira, o LP Courage, com arranjos de Eumir Deodato (outro debandado!). Com o disco seguiu em turnê pelos EUA e México. Só depois disso ele voltaria ao Brasil para gravar o seu segundo disco, Milton Nascimento de 1968 e ser reconhecido nacionalmente. Antes disso Bituca costumava tocar em BH num boteco chamado Berimbau que ficava ali no Edifício Maletta e ninguém ia lá para ouvi-lo, mas para conversar e beber como até hoje, invariavelmente, todo mundo faz aqui em BH.

    Aliás, aqui em Belo Horizonte temos uma situação das mais absurdas: a cena mais efervescente do país não tem sequer uma casa de shows voltada para trabalhos autorais. Isso é o que mais me deixa intrigado. Será que ninguém do ramo percebeu isso? Será que eles não se deram conta que basta criar um clima, apagar a luz da platéia, deixar de servir nas mesas durante a apresentação, investir num som decente e numa divulgação mínima? E olha que já fizemos isso e deu certo, mas somos músicos, não somos donos de casas de show.

    Agora me explique essa relação que você fez entre café, bifes suculentos e etanol. Primeiro, se é para ter consciência de cidadania então comece cortando de seu cardápio a picanha, porque para produzir seu bife suculento são necessárias áreas muito maiores do que para plantar grãos e vegetais que alimentariam muito mais bocas do que a sua. Com isso você está colaborando com a fome e a miséria do planeta. Depois, que música e cultura em geral são bens renováveis, mais que isso, são auto-renováveis, quanto mais se produz mais se estimula sua criação. Você acha mesmo que devíamos restringir o mercado para nossa música? Quem pensa assim é o Tinhorão!

  8. Renato Villaça
    18/02/2009 de 15:34 · Responder

    Não é nada disso.
    Não penso que devemos restringir mercado nenhum. Todos obviamente são benvindos e devem ser perseguidos.

    Porém, sinceramente não acredito em um projeto exportador que não leve em consideração sequer a possibilidade de desenvolvimento de um mercado de consumo interno paralelamente pelo menos. Os custos desse tipo de iniciativa só são justificáveis se ela ocorrer de uma forma muito bem planejada e sustentada comercialmente lá fora. O que temos, mesmo com a cooperativa, são esforços isolados.

    Voltando ao café, a picanha e ao etanol, a impressão que tenho é que às vezes parece que estamos lutando pra conseguir dinheiro para podermos ir dar amostras grátis, mas de dificílima eficácia comercial sustentável lá fora. não são vocês mesmos que defendem veementemente a idéia de que o músico não deve pagar pra trabalhar, e sim receber?

    não concordo que nem eu como músico isolado, nem o estado devamos pagar para promover o acesso dos países desenvolvidos (ainda mais agora com essa crise) ao que fazemos. A intertet está aí pra isso.

    Quanto ao etanol, foi uma imagem usada simplesmente para exemplificar a questão da desconsideração da importancia de um trabalho interno de base e construção de mercado de consumo. Não tem nada a ver com os exemplos anteriores. Não misture as coisas.

    Um abraço.

  9. Renato Villaça
    18/02/2009 de 15:38 · Responder

    E Tinhorão é a mãe, seu candidato a Sérgio Mendes (o músico que representa o Brasil nos EUA, mas parece ser um legítimo americano).

    RARARA!!!
    Abraço aos dois.

  10. Guilherme Castro
    18/02/2009 de 20:48 · Responder

    Hehehe Renato (nossa! eu sei que essa foi infame!)

    Eu acho que um projeto exportador, pelo meos no caso de MInas, já é um projeto que leva em conta o desenvolvimento de um mercado local. O “santo de casa não faz milagre” é exatamente isso. Quem sabe assim, público e donos de casa acreditem que podem fazer um projeto planejado e pensado para uma cena autoral sustentável, mesmo que seja em forma de festivais semestrais ou anuais…

    um abraço

    Guilherme

  11. O de Andrade
    19/02/2009 de 08:14 · Responder

    Pois é meu caro Makely, eu que já vivo há muitos anos na Alemanha me esforço – dentro das minhas limitadas possibilidades de ouvinte assíduo e acompanhador de tendências musicais dentro do vasto universo do que chamamos de MPB – para divulgar nossa música, que muito agrada os ouvidos alheios, mas é pouco conhecida por não ser devidamente divulgada; mesmo assim já tive o prazer de ver um show da banda “Berimbrown” aqui na pacata cidade em que vivo. Foi um momento mágico e alucinante!
    A internet tem ajudado bastante a romper as barreiras impostas pelo mercado fonográfico de rádios “pagas para fazer sucessos”. Hoje o bom músico-compositor está mais independente e consciente do seu papel no desenrolar do novo na nossa música mineira. E você faz parte disso e por isso tem minha admiração e respeito!

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