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Tira-prova!

Aproveitando o gancho do poste anterior e a discussão que está rolando nos comentários, publico aqui a matéria que saiu hoje no Estado de Minas sobre a apresentação que meu parceiro faz na cidade logo mais. Vou passar antes no debate com o Arnaldo Antunes dentro do projeto Ofício da Palavra, do Museu de Artes e Ofícios, na Praça da Estação e depois sigo pro Parque Municipal. E o melhor é que é tudo zeroitocentos!

Sem fronteiras

por Eduardo Tristão Girão


Kristoff Silva faz show esta noite, no Teatro Francisco Nunes, na programação do Festival Verão Arte Contemporânea. Repertório tem como base seu primeiro CD, Em pé no porto.

Dia desses, o carro de Kristoff Silva estragou. Como é muito mais músico que mecânico, ele se encantou com a naturalidade e destreza demonstradas pelo técnico ao detectar e solucionar o problema. Sensibilidade para se emocionar ele tem de sobra, mas não a deixa totalmente a serviço da espontaneidade, como bem fazem os cronistas. Ao contrário, seu negócio é lapidar, burilar, trabalhar sobre palavras e textos. Não que a música não tenha importância em seu trabalho – pois tem –, mas é a canção que mais o interessa. Prova disso é seu primeiro disco, Em pé no porto, cujo repertório mostra hoje à noite, no Teatro Francisco Nunes, em Belo Horizonte. A entrada é franca.

“Meu desafio é atender a palavra com cada vez mais liberdade musical”, sintetiza Kristoff Silva. É justamente por isso – o extremo apreço pela canção e, conseqüentemente, pela palavra – que seu trabalho vem sendo comparado à produção da vanguarda musical paulista de Arrigo Barnabé, Grupo Rumo e Itamar Assumpção. “Não acho que meu trabalho seja parecido com o Rumo. Tenho influências dele, mas não é a mesma coisa”, explica.

O artista também se identifica com referências mais recentes, como Iara Rennó, filha de Auzira Espíndola e Carlos Rennó. “Nela, continua viva e em movimento essa herança do Arrigo e Itamar, dialogando com o rap. Não o rap norte-americano, mas o rap como expressão mais pura da canção”, justifica. Clara comunhão intelectual com certas idéias de Luiz Tatit acerca da relação entre rap e canção.

As tais influências da vanguarda paulista não são poucas, como atestam as quatro canções que escreveu com Luiz Tatit, um dos fundadores do grupo paulista, e que estão em Em pé no porto, lançado em agosto do ano passado. “Luiz Tatit é meu parceiro e isso já diz tudo. Dedico esse disco a José Miguel Wisnik, e isso já diz muito também. Aprecio a interpretação de Ná Ozzetti e Itamar Assumpção com sua fragmentação do discurso, ou seja, a melodia fazendo contraponto com a linha de baixo e dando contundência à letra”, explica.

Minas

Kristoff tem família mineira, mas nasceu nos Estados Unidos. Veio para Belo Horizonte ainda no primeiro ano de vida. Especulações sobre conexões com a música mineira são freqüentes, e o artista as responde sem receio: “A música de Milton Nascimento e do Clube da Esquina faz parte do meu corpo musical. Aprendi música com os mineiros, mas tanto quanto com Caetano Veloso e Gilberto Gil. A diferença é que quando quero compor, me oriento pelos paulistas. Interessa-me mais”.

Outra prova dessa afinidade musical peculiar é a parceria com Makely Ka, artista piauiense radicado na capital mineira, cujo trabalho em nada lembra o chavão da harmonia da música mineira. Juntos, escreveram cinco das 12 faixas de Em pé no porto. Com ele e Pablo Castro, lançou, em 2003, o disco Outra cidade, espécie de coletivo de novos artistas mineiros.

Como o próprio Kristoff gosta de definir, Outra cidade é o “retrato de uma geração”: “Percebemos que esse disco poderia ser o cruzamento de várias biografias, não apenas as nossas, mas de todos os 44 músicos e compositores que participaram. Desde o Trovão de Minas até gente do rock progressivo e da música eletrônica”.

Mas não dá para colocar tudo no mesmo balaio, avisa. A começar pelo seu trabalho e o de Makely: “Vejo-me mais ligado à beleza, e Makely à destruição. Sou mais ligado a lapidar o texto sonoro, e Makely, a lapidar o texto como letra, com suas aliterações e rimas”.

O músico promete outro show para abril, porém em alguma cidade próxima a Belo Horizonte. Na ocasião, gravará o que será seu primeiro DVD. Por enquanto, continua se dedicando à direção musical do disco do pianista Rafael Macedo e ao trabalho em torno do livro de partituras do compositor baiano Elomar, que divide com outros três violonistas – lançamento previsto para junho.

Kristoff Silva

Hoje, às 21h, no Teatro Francisco Nunes (Avenida Afonso Pena, s/nº, Parque Municipal, Centro). Informações: (31) 3277-9778. Entrada franca (os ingressos devem ser retirados meia hora antes do show).

Ouça as músicas do CD aqui: www.kristoffsilva.com.br

Postado em 26/02/2008 Blog!

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Sobre o autor

Makely Ka (Valença do Piauí, 1975) é um poeta cantor, instrumentista, produtor cultural e compositor brasileiro. Makely é poeta, compositor e agitador cultural. Atuando em diversas áreas como a música, a poesia e o vídeo. Incorpora à sua produção artística um componente crítico e reflexivo. Autodidata, desenvolveu uma poética musical própria, amalgamando elementos da trova e do aboio de herança ibérica às novas linguagens sonoras urbanas como o rap, do despojamento da poesia marginal ao rigor formal da poesia concreta.

(2) respostas

  1. Juliana Amato
    26/02/2008 de 21:53 · Responder

    Olá, rapaz, obrigada pela visita!
    estou aqui também, ó: http://julianamato.blogspot.com
    abrazo, autófago!

  2. renato villaça
    02/03/2008 de 08:08 · Responder

    foi um belo show. kristoff conta certamente com a melhor banda da cidade e sabe muito bem conciliar os ingredientes que cada um coloca na sua mistura. é bom ver que de vez em quando os músicos conseguem realizar algo que não chega a ser, ou ultrapassa os limites da própria música, como diria o wisnik. conceito é isso aí, minha gente. música sem conceito é só um monte de nota amontoada.

    palmas pra eles.

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