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O sertão vai virar barragem (carvão, papel, álcool e ração)!

Estive mais uma vez no sertão de Minas. Pedalei entre Buritizeiro e Paredão, na região noroeste, pelo lado esquerdo do Rio São Francisco. Desta vez, fui acompanhado dos fotógrafos e cinegrafistas Davi Fuzzari e Marco Antonio Gonçalves, da Laboratório Filmes, que estão fazendo um documentário sobre o projeto “Cavalo Motor”.

No primeiro dia dormimos em Buritizeiro, na Pousada Portal do Sertão. Saímos pela manhã a caminho de Barra do Guaicuí para fotografar e registrar o encontro do Rio das Velhas com o São Francisco. De lá pegamos a estrada no sentido de São Romão. Começamos a pedalar no início da estrada de terra. Passamos pelo vilarejo de Xupé e dormimos numa vereda no meio do caminho.

Voltar a pedalar no sertão é como entrar novamente num sonho lisérgico, com experiências sensoriais indescritíveis. Mas pedalar nessa região provoca também uma angústia, porque há sempre uma tensão, rastros da devastação que avança a cada ano sobre o cerrado, cedendo hectares para florestas de eucalipto, plantações de cana, de soja, de capim.

O mapa da devastação é resumidamente o seguinte: florestas de eucalipto tomam a paisagem entre Curvelo, Três Marias, Buritizeiro, Lassance e Várzea da Palma; na região que compreende Paracatu, João Pinheiro, Brasilândia, Bonfinópolis e Santa Fé foi instalada uma usina de beneficiamento de álcool e o cerrado vira cana (http://migre.me/gBysq). Mais acima, incluindo Unaí, Arinos, Buritis e a região da Serra das Araras em Chapada Gaúcha predomina a soja, em geral transgênica. Isso sem mencionar a extração de gás natural e a ação das mineradoras. Tem mais, em toda a região as carvoarias funcionam dia e noite, transformando em carbono uma infinidade de árvores como oiti, gomeira, embiruçu, paineira, barbatimão, pau-doce, lobeira, marmelo, pequizeiro, murici, araçá, pau-terra e tantas outras. Não é raro encontrar trabalho infantil e situação de escravidão nessas carvoeiras que funcionam na total ilegalidade e conivência dos poderes locais.

Mas, agora, uma nova ameaça paira sobre o cerrado sob a égide do progresso. São as PCH, pequenas centrais hidrelétricas programadas para interromper o curso de vários rios da região. Estão programadas barragens no Rio do Sono, no Carinhanha, no Itaguari e no Rio Pardo Pequeno. Os rios Carinhanha e Itaguari atravessam unidades de conservação em Minas e na Bahia, como o Parque Nacional Grande Sertão Veredas e banham terras de comunidades tradicionais, indígenas e quilombolas. Nessa região há espécies de plantas e animais que não são encontradas em nenhum outro lugar do planeta. Muitas ainda desconhecidas, talvez jamais cheguemos a conhecê-las.

O Rio do Sono, que corre mais ao sul, na bacia do Paracatu e que banha o vilarejo de Paredão de Minas, é mundialmente conhecido graças ao escritor mineiro Guimarães Rosa e ao diretor Walter Avancini. O primeiro escolheu esse rio para ambientar a batalha final entre os jagunços comandados pelo Hermógenes e os Ramiros, sob chefia de Riobaldo Tatarana. O segundo usou o rio como cenário para as gravações da minissérie “Grande Sertão: Veredas” exibida pela Globo em 1985 e distribuída para diversos países. Esse rio que se abre numa corredeira por sobre as lajes por mais de um quilômetro, onde ainda se pesca com abundância dourados e surubins escassos hoje no São Francisco, está condenado a receber três barragens. Isso pode implicar num impacto ambiental irreparável. O projeto já foi aprovado pela ANEEL: http://migre.me/gByx4

E o projeto desenvolvimentista segue com apoio da imprensa e dos órgãos governamentais. Há cerca de dois anos foi publicado no jornal Estado de Minas um artigo sobre a chegada do progresso no Noroeste de Minas. A matéria especial, publicada em três capítulos, era uma espécie de legitimação do social-desenvolvimentismo e, não por acaso, ganhou o prêmio da Confederação Nacional das Indústrias (CNI): http://migre.me/gByyo

Diante disso, o que chama mais atenção é um fato incontestável: esse avanço, esse progresso, alardeado como imprescindível, não gera nenhum benefício real para os moradores locais, além de empregos temporários e desqualificados, não traz nenhuma melhoria, só instabilidade. A substituição do cerrado pelas plantações não produz alimentos para aquelas pessoas. Os eucaliptos se transformam em celulose ou carvão para alimentar siderúrgicas, a cana vira combustível, a soja vira ração, o minério, commodity. A energia das barragens não vai iluminar aquelas vilas, não vai reduzir o preço das tarifas, não vai sequer gerar royalties para os municípios. Ela vai sair direto das casas de força para uma central de alta tensão onde então será integrada ao Sistema Nacional administrado pela CEMIG. Fica, portanto a pergunta: qual a razão disso? A destruição do cerrado não vai contribuir para diminuir a fome de ninguém, não vai reduzir as desigualdades sociais, não vai melhorar as condições de vida daquelas pessoas, vai somente ampliar o lucro dos grandes produtores rurais, das empresas envolvidas nos projetos e da indústria.

É isso mesmo que queremos?

Postado em 13/11/2013 Blog!

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Sobre o autor

Makely Ka (Valença do Piauí, 1975) é um poeta cantor, instrumentista, produtor cultural e compositor brasileiro. Makely é poeta, compositor e agitador cultural. Atuando em diversas áreas como a música, a poesia e o vídeo. Incorpora à sua produção artística um componente crítico e reflexivo. Autodidata, desenvolveu uma poética musical própria, amalgamando elementos da trova e do aboio de herança ibérica às novas linguagens sonoras urbanas como o rap, do despojamento da poesia marginal ao rigor formal da poesia concreta.

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