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Tropa de Choque

Em meio a esse tiroteio parece que Tropa de Elite – independente de gostar-se ou não do filme – ao suscitar debates acalorados sobre pirataria, tráfico de drogas, segurança pública e tortura, tem conseguido fazer com que as pessoas definitivamente saiam do armário. Nas manifestações espontâneas que se viu nas salas onde o filme foi exibido, desde as primeiras sessões, chamou atenção a euforia de parte da platéia durante as cenas de tortura. Eu, particularmente, acredito que desde o referendo do desarmamento passamos a ter uma nova e assustadora configuração do sentimento geral da população com relação a seus próprios valores. A indústria armamentista virou um jogo que parecia ganho por w.o., no país onde foi identificada a cada vez mais rara espécime conhecida pelos sociólogos como homem cordial ! Mas o mais irônico talvez tenha sido um fato aparentemente desconexo ocorrido apenas alguns meses depois: a morte do coronel e ex-deputado Ubiratan Guimarães. No seu histórico, entre outras proezas, consta o comando da operação responsável pelo massacre do Carandiru que vitimou 111 presos, quase todos pretos, ou quase pretos. A curiosidade é que um dos principais articuladores do que ficou conhecido como bancada da bala no congresso durante a campanha do referendo, o coronel Ubiratan foi morto, vejam só, por uma de suas próprias armas e dentro de sua própria casa!

Ironias do destino a parte, o fato é que pesquisa recente mostra que aproximadamente 55% dos brasileiros hoje são favoráveis à pena capital!

O maniqueísmo instaurado tem gerado distorções as mais diversas em nome de uma suposta segurança, ou da falta dela. Um ex-deputado federal por exemplo, dono de um dos principais jornais mineiros, propôs, num editorial recente, algo que me deixou perplexo. É que o sujeito encontrou uma solução simples e objetiva pra acabar com o tráfico: acaba-se com os usuários! Olha que idéia genial teve o empresário. E para isso ele acha que bastam os governantes se empenharem numa campanha nacional para que todos se tratem. Se não funcionar, ou seja, se os usuários não se apresentarem espontaneamente para tratamento, ele tem um plano B: exames compulsórios em toda a população! Simples assim… E o pior de tudo é que ele vem ganhando apoio cada vez maior pra levar adiante sua cruzada moralista!

http://www.jornalpampulha.com.br…eria.php? id=870

É tentadora a tese levantada pelo filme de que os culpados pelo tráfico são os usuários, afinal, como estamos numa economia de mercado, se não há demanda não há produto. Mas a equação é muito mais complexa e só pode ser resolvida assim por hipocrisia e ingenuidade. Primeiro porque não cabe a ninguém, senão a cada um, determinar que tipo de substância ingere ou deixa de ingerir. Segundo porque o homem, em todas as épocas e tipos de sociedade, sempre utilizou algum alterador de consciência sem que isso, contudo, causasse qualquer tipo de problema social semelhante ao que temos hoje. Ao contrário, os alteradores tem papel fundamental nos ritos de passagem, nas comemorações, nos processos de cura. A história da repressão às drogas é muito recente e tem fatores morais, políticos e comerciais. É muito fácil perceber que o tráfico é um problema muito maior que as possíveis conseqüências do uso de drogas ilícitas. O sistema aqui é muito mais nervoso e emaranhado do que a tríade traficante-usuário-policial. Como lembra meu amigo Pirata (link ao lado), citando verso cantado por Bezerra da Silva, “navio não sobe morro”. Convenhamos que não há plantação de coca nem de canabis no morro! Mas afinal, como esses carregamentos passam por portos, aeroportos, alfândegas e postos de fiscalização? Quem realmente está por trás disso?

Uma curiosidade são as supostas continuações do filme, vendidas nos camelôs como Tropa de Elite 2 e 3. Comprei ambas e para minha surpresa na 2 há dois documentários realmente documentais e muito bons. O primeiro é “Notícias de uma guerra particular”, de João Moreira Salles, o outro é do nosso maior documentarista, o diretor Eduardo Coutinho, “Duas semanas no Morro Santa Marta”. Valem a pena e provavelmente não seriam vistos por metade das pessoas que agora compram a continuação de Tropa de Elite. O outro DVD, vendido como Tropa de Elite 3, é um caça-níquel, com cenas de operações policiais gravadas em favelas por cinegrafistas amadores. Além de ser explicitamente preconceituoso é tecnicamente deplorável. Não vale a pena!

Postado em 26/10/2007 Blog!

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Sobre o autor

Makely Ka (Valença do Piauí, 1975) é um poeta cantor, instrumentista, produtor cultural e compositor brasileiro. Makely é poeta, compositor e agitador cultural. Atuando em diversas áreas como a música, a poesia e o vídeo. Incorpora à sua produção artística um componente crítico e reflexivo. Autodidata, desenvolveu uma poética musical própria, amalgamando elementos da trova e do aboio de herança ibérica às novas linguagens sonoras urbanas como o rap, do despojamento da poesia marginal ao rigor formal da poesia concreta.

(6) respostas

  1. Dani Morreale
    26/10/2007 de 10:03 · Responder

    A CULPA É DE QUEM?

  2. Luiz Navarro
    27/10/2007 de 18:48 · Responder

    faço a mesma pergunta da dani, makely. depois de tropa de elite, o brasil ficou numa sinuca de bico. apesar de toda a boa intenção do diretor, o público gosta de sangue, gosta de moralismo, gosta de tortura. afinal, a culpa é de quem? o que se pode fazer?

  3. Renato Villaça
    29/10/2007 de 10:24 · Responder

    Depois de muita preguiça, finalmente assisti um dvd pirata que meu cunhado me emprestou.

    O filme é igualmente preconceituoso com todas as partes envolvidas.

    Sua forma e sua linguagem são totalmente hollywoodianas. Quem já viu Pulp Fiction há mais de década não deveria se surpreender com nenhuma cena.

    A única vantagem de toda essa conversa fiada jogada fora por aí sobre esse filme é que fica bem claro o quanto a pirataria é o maior meio de exposição cultural da atualidade. Graças a ela um filme medíocre como esse virou um fenômeno.

    Mas, convenhamos… ainda estou esperando um filme brasileiro de verdade. Isso tudo aí é uma mistura de minissérie da globo com filme de baixo orçamento americano.

  4. Renato Villaça
    29/10/2007 de 10:25 · Responder

    ah…

    a culpa é toda NOSSA!!!
    não queiram vcs também tirar o seus da reta.

  5. Dani Morreale
    29/10/2007 de 17:32 · Responder

    A culpa também é minha.

  6. Luiz Navarro
    08/11/2007 de 19:12 · Responder

    é, a culpa é nossa mesmo

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